segunda-feira, 5 de junho de 2023

As Ciências da Religião nos anos 2020

    

    As Ciências da Religião são um campo de estudo acadêmico que se dedica a compreender as diferentes tradições religiosas e seu impacto na sociedade. No mundo atual, esse campo tem se mostrado cada vez mais relevante, à medida que a religião continua a desempenhar um papel significativo na vida das pessoas e nas dinâmicas sociais. As Ciências da Religião buscam analisar, interpretar e contextualizar as práticas, crenças e instituições religiosas de forma imparcial, utilizando uma abordagem multidisciplinar que envolve áreas como história, sociologia, antropologia e filosofia.

    Um dos principais objetivos das Ciências da Religião é promover uma compreensão mais profunda das diferentes religiões existentes no mundo. Por meio de estudos comparativos, os pesquisadores desse campo buscam identificar semelhanças e diferenças entre as tradições religiosas, examinando aspectos como mitologia, rituais, ética, doutrinas e práticas devocionais. Esse enfoque comparativo permite uma visão mais ampla e rica da diversidade religiosa global, contribuindo para o diálogo inter-religioso e a compreensão mútua.

    Além de analisar as religiões em si, as Ciências da Religião também investigam o impacto das práticas religiosas na sociedade. Os estudos nessa área exploram como a religião influencia a cultura, a política, as relações sociais e a formação da identidade individual e coletiva. Esse enfoque sociológico e antropológico possibilita uma compreensão mais abrangente dos fenômenos religiosos, levando em consideração o contexto histórico, social e cultural em que eles se desenvolvem.


    No cenário global, as Ciências da Religião têm desempenhado um papel importante na promoção do respeito pela diversidade religiosa e na construção de pontes entre diferentes tradições. Através da pesquisa acadêmica, do ensino e do diálogo interdisciplinar, esse campo de estudo contribui para a mitigação de preconceitos religiosos, para o combate à intolerância e para a promoção do pluralismo religioso. Além disso, as Ciências da Religião oferecem insights valiosos para a compreensão de questões contemporâneas complexas, como a relação entre religião e política, a secularização e os desafios enfrentados pelas sociedades multirreligiosas.

    O avanço das Ciências da Religião também está relacionado ao interesse crescente na compreensão dos fenômenos espirituais e transcendentais de uma perspectiva acadêmica. Esse campo de estudo proporciona um espaço para a investigação científica de experiências religiosas, misticismo, espiritualidade e outras dimensões relacionadas à busca do sentido e do sagrado. Essa abordagem acadêmica busca explorar os aspectos psicológicos, neurológicos e ao mesmo tempos históricos e críticos da religião.

    Os estudos das Ciências da Religião contam com uma série de acadêmicos e autores que contribuíram de forma significativa para o campo, oferecendo insights valiosos sobre as diferentes tradições religiosas e suas complexidades. Esses autores se destacam por suas pesquisas pioneiras, análises críticas e abordagens interdisciplinares. A seguir, apresentamos alguns dos autores mais conhecidos das Ciências da Religião:

Mircea Eliade:
    Mircea Eliade foi um renomado historiador das religiões romeno. Sua obra mais influente, "O Sagrado e o Profano", publicada em 1957, explora as diferentes manifestações do sagrado nas sociedades humanas. Eliade defendia que a religião é uma dimensão fundamental da experiência humana e analisou amplamente as estruturas religiosas, os mitos e os rituais de diversas tradições.



Rudolf Otto:
    Rudolf Otto, teólogo e filósofo alemão, é conhecido por seu livro "O Sagrado", publicado em 1917. Nessa obra, ele introduz o conceito de "numinoso", que se refere à experiência do sagrado como algo tremendamente poderoso e transcendente. Otto argumentou que essa experiência do numinoso é uma base fundamental para a religião e influenciou profundamente o estudo comparativo das religiões.

Wilhelm Schmidt:
    Wilhelm Schmidt, um antropólogo austríaco, é conhecido por sua abordagem na pesquisa das origens das religiões. Sua teoria principal era a de que a religião se originou do culto aos antepassados e que havia uma religião original comum a todas as culturas humanas. Sua obra "A Origem da Ideia de Deus" (1912-1955) foi uma importante contribuição para o estudo comparativo das religiões.

Ninian Smart:
    Ninian Smart, filósofo e estudioso das religiões britânico, desenvolveu uma abordagem multidimensional para o estudo das religiões. Em sua obra "The Religious Experience of Mankind" (1969), ele propôs sete dimensões-chave das religiões, incluindo rituais, doutrinas, experiência mística, ética e aspectos sociais. Smart enfatizou a importância de compreender a religião em sua totalidade, abrangendo suas diversas manifestações.

Karen Armstrong:
    Karen Armstrong é uma renomada escritora e estudiosa das religiões. Seu livro "Uma História de Deus" (1993) recebeu ampla aclamação e se tornou uma referência no estudo da religião. Armstrong explora a evolução do conceito de Deus nas principais tradições religiosas e analisa o papel da religião na história e na sociedade. Sua abordagem abrangente e acessível cativou um público amplo e ajudou a promover o diálogo inter-religioso.

    Esses são apenas alguns exemplos de autores notáveis das Ciências da Religião. Suas contribuições têm desempenhado um papel fundamental no avanço do campo, fornecendo insights cruciais para o estudo das religiões no mundo, seja pelo viés sociológico, histórico ou antropológico.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Narcopentecostalismo e os limites entre conversão religiosa e criminalidade no Rio de Janeiro.

    Narcopentecostalismo é um termo usado para descrever a aliança entre traficantes de drogas e membros de igrejas pentecostais no Brasil. Esse fenômeno tornou-se cada vez mais prevalente nos últimos anos e levantou preocupações sobre as implicações morais e éticas dessa colaboração. Um dos exemplos mais notórios de narcopentecostalismo no Brasil é o Complexo de Israel, uma poderosa organização criminosa que opera na favela do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

    O Complexo de Israel foi formado no início dos anos 2000 e rapidamente se tornou uma das organizações criminosas mais poderosas do Rio de Janeiro. O grupo é liderado por Marcos Pereira, um pregador pentecostal que usa sua influência religiosa para manter o controle da favela. Pereira foi acusado de usar sua igreja para lavar dinheiro do tráfico de drogas e também foi implicado em casos de estupro e agressão sexual ¹.

    O Complexo de Israel tem uma hierarquia complexa e funciona com uma estrutura militar. O grupo controla todos os aspectos da vida na favela, incluindo comércio, transporte e segurança. Os membros do grupo são conhecidos por sua extrema violência e foram responsáveis ​​por inúmeros crimes, incluindo assassinatos, sequestros e extorsão.

    A relação entre o Complexo de Israel e o pentecostalismo é complexa. Alguns membros do grupo são pentecostais devotos que veem suas atividades criminosas como uma forma de financiar seu trabalho religioso. Outros usam suas afiliações religiosas para obter aceitação social e legitimidade. No entanto, muitos líderes pentecostais no Brasil rejeitam qualquer associação com o narcotráfico e a veem como uma traição aos seus valores religiosos.

    O Complexo de Israel é um excelente exemplo dos perigos do narcopentecostalismo. Os líderes do grupo usaram a religião para justificar suas atividades criminosas e conquistaram muitos seguidores entre os moradores pobres e marginalizados da favela ². O controle do grupo sobre a favela dificultou a intervenção da polícia e de outras autoridades e criou uma sensação de ilegalidade na área.

    Esforços para combater o narcopentecostalismo no Brasil continuam. O governo implementou programas destinados a promover a inclusão social e reduzir a pobreza nas favelas, e organizações da sociedade civil têm trabalhado para aumentar a conscientização sobre os perigos do narcopentecostalismo. No entanto, o problema é complexo e exigirá esforços sustentados a longo prazo para abordar as causas desse fenômeno e impedir a disseminação de grupos como o Complexo de Israel.

    Em conclusão, o narcopentecostalismo é um fenômeno complexo e preocupante no Brasil. A aliança entre traficantes de drogas e igrejas pentecostais criou um dilema moral e ético para muitos brasileiros. O Complexo de Israel é um excelente exemplo dos perigos do narcopentecostalismo e criou uma sensação de ilegalidade na favela do Complexo do Alemão. Embora os esforços para combater esse problema estejam em andamento, serão necessários esforços sustentados e coordenados por parte do governo e das organizações da sociedade civil para abordar as causas profundas desse fenômeno e impedir sua disseminação na sociedade brasileira.


¹: https://veja.abril.com.br/brasil/policia-do-rio-investiga-pastor-celebridade-por-denuncias-de-estupro-tortura-e-ameaca-de-morte/

²: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj5ej64934mo

Imagem: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/07/24/traficantes-usam-pandemia-para-criar-novo-complexo-de-favelas-no-rio-deixam-rastro-de-desaparecidos-e-tentam-impor-religiao.ghtml


terça-feira, 16 de maio de 2023

A difícil aceitação da religião e ciência juntas na modernidade.



    A religião e a ciência muitas vezes abordam diferentes domínios da compreensão humana e podem ser vistas como abordagens distintas para explicar o mundo. Enquanto a ciência se baseia em evidências empíricas, metodologia rigorosa e o método científico para entender e explicar o mundo natural, a religião geralmente se baseia na fé, na espiritualidade e em conceitos metafísicos para abordar questões de significado, propósito e moralidade. Como tal, a religião normalmente não depende do raciocínio baseado em evidências da mesma forma que a ciência.

    No entanto, vale a pena notar que alguns indivíduos religiosos ou grupos religiosos podem interpretar os ensinamentos de sua fé de maneira compatível com o conhecimento e os princípios científicos. Eles podem não ver nenhum conflito inerente entre suas crenças religiosas e a compreensão científica e podem até vê-los como formas complementares de entender o mundo. Nesses casos, os indivíduos podem encontrar significado e propósito pessoal por meio de sua fé religiosa, ao mesmo tempo em que aceitam e abraçam o conhecimento e as evidências científicas.

    A relação entre religião e ciência é complexa e evoluiu ao longo do tempo. Embora tenha havido instâncias históricas de conflito entre perspectivas religiosas e científicas, também há muitos exemplos de indivíduos e comunidades que integram suas crenças religiosas e compreensão científica de forma harmoniosa. Essa perspectiva, às vezes chamada de "compatibilismo", sustenta que a religião e a ciência podem coexistir e até mesmo enriquecer a compreensão mútua do mundo.

    É importante observar, no entanto, que também há casos em que as crenças religiosas podem entrar em conflito com as descobertas científicas ou vice-versa. Nesses casos, os indivíduos podem precisar reconciliar ou navegar pelas diferenças entre sua fé religiosa e compreensão científica com base em suas crenças, valores e contexto pessoais.

    Em resumo, a religião e a ciência podem ser vistas como abordagens distintas para a compreensão do mundo, com a religião tipicamente baseada na fé e em conceitos metafísicos, em vez do raciocínio baseado em evidências. Embora alguns indivíduos possam encontrar maneiras de conciliar suas crenças religiosas e compreensão científica, a relação entre religião e ciência é complexa e multifacetada, e as perspectivas sobre sua compatibilidade variam.


segunda-feira, 1 de maio de 2023

Religiosidade e partidos de extrema direita no Brasil: a religião a serviço da política?

    O seguinte artigo tem como base o artigo anteriormente postado neste blog (https://novumreligionis.blogspot.com/2023/04/religiosidade-e-partidos-de-esquerda-no.html), de forma que, será usada a mesma estrutura textual utilizada anteriorment. Ambos artigos foram escritos em mesmo momento, entretanto optei por separá-los na hora da publicação.

    A interseção entre religião e política tem sido um aspecto significativo do cenário social e político no Brasil, e os partidos de extrema direita emergiram como forças políticas influentes nos últimos anos. A religiosidade, com suas diversas tradições e práticas religiosas, desempenha um papel crucial na formação das ideologias e estratégias políticas desses partidos. Neste ensaio, exploraremos a relação entre religiosidade e partidos de extrema-direita no Brasil, examinando como a religião se cruza com a política nesse contexto.

    O Brasil é conhecido por seu cenário religioso diversificado, sendo o catolicismo historicamente a religião dominante. No entanto, nos últimos anos, houve um aumento do protestantismo evangélico, principalmente entre as comunidades marginalizadas. Essa mudança no cenário religioso também tem implicações no cenário político, incluindo a ascensão de partidos de extrema direita. Esses partidos costumam usar a religião como uma força mobilizadora, apelando para sentimentos e valores religiosos para angariar apoio.

    Os partidos de extrema direita no Brasil, como o Partido Social Liberal, PSL, muitas vezes utilizaram a religiosidade como um aspecto significativo de sua agenda política. Esses partidos tendem a se alinhar com grupos e líderes religiosos conservadores, defendendo questões como valores familiares tradicionais, políticas antiabortivas e oposição aos direitos LGBTQ+. Frequentemente, eles se apresentam como campeões de valores religiosos e defensores de instituições religiosas tradicionais, posicionando a religião como um aspecto fundamental de sua identidade política.

    A religiosidade também desempenha um papel na formação das políticas e estratégias dos partidos de extrema direita no Brasil. Essas partes podem procurar promover políticas alinhadas com os ensinamentos e valores religiosos, como promover a educação cristã nas escolas, apoiar símbolos religiosos em espaços públicos e defender padrões morais e éticos mais rígidos na sociedade. Eles também podem se envolver em uma retórica que enquadra seus oponentes políticos como contrários aos valores religiosos, posicionando-se como protetores do tecido moral e religioso da nação.

    Além disso, os partidos de extrema direita no Brasil muitas vezes utilizam redes e líderes religiosos para mobilizar apoio entre sua base. Eles podem buscar endosso de figuras religiosas influentes, realizar comícios ou eventos conjuntos com organizações religiosas e usar linguagem e simbolismo religiosos em seu discurso político. Instituições religiosas, particularmente as conservadoras, podem servir como poderosas aliadas e mobilizadoras de partidos de extrema-direita, ajudando-os a ampliar sua agenda política e a obter apoio entre eleitorados religiosamente devotos.

    É importante observar que a relação entre religiosidade e partidos de extrema direita no Brasil não é isenta de polêmicas e conflitos. Embora alguns grupos religiosos possam se alinhar com esses partidos com base em valores ou interesses compartilhados, outros podem ter perspectivas diferentes sobre questões como justiça social, redução da pobreza e direitos humanos. Pode haver tensões dentro das comunidades religiosas, bem como com outros grupos políticos, quando se trata do papel da religião na política e nas políticas defendidas pelos partidos de extrema direita.

    Concluindo brevemente, a relação entre religiosidade e partidos de extrema direita no Brasil é de difícil percepção a olho nu. Esses partidos frequentemente utilizam a religiosidade como um aspecto significativo de sua agenda política, alinhando-se com grupos e líderes religiosos conservadores e defendendo políticas que se alinhem com os ensinamentos e valores religiosos. A religiosidade desempenha um papel crucial na formação das estratégias e políticas dos partidos de extrema direita no Brasil, e as redes e líderes religiosos atuam como mobilizadores influentes de apoio. No entanto, podem surgir conflitos e tensões dentro das comunidades religiosas e com outros grupos políticos sobre questões relacionadas com religião e política.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Religiosidade e partidos de esquerda no Brasil: examinando a relação entre religião e política

    Religião e política há muito se entrelaçam em várias sociedades ao redor do mundo, e o Brasil não é exceção. Com sua rica diversidade cultural e religiosa, o Brasil possui uma complexa relação entre religiosidade e ideologias políticas. Nos últimos anos, os partidos de esquerda e extrema esquerda no Brasil emergiram como forças políticas significativas, muitas vezes com abordagens religiosas contrastantes. Neste pequeno ensaio, exploraremos a relação entre religiosidade e partidos de esquerda no Brasil, examinando como religião e política se cruzam nesse contexto.

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2022/06/23/esquerda-acredita-que-salvara-as-pessoas-no-lugar-de-cristo-diz-evangelico-do-psol

    A paisagem histórica e cultural do Brasil é caracterizada por uma gama diversificada de tradições religiosas, incluindo catolicismo, protestantismo, religiões africanas da diáspora, como candomblé e umbanda, e práticas espirituais indígenas. Essas tradições religiosas desempenham um papel significativo na formação do cenário religioso do Brasil e influenciam sua política. Tradicionalmente, o catolicismo tem sido a religião dominante no Brasil, com forte influência no tecido político e social do país. No entanto, nas últimas décadas, houve um aumento do protestantismo evangélico, principalmente entre as comunidades marginalizadas. Essa mudança no cenário religioso também tem implicações no cenário político, incluindo o surgimento de partidos de esquerda.

    Os partidos de esquerda no Brasil, como o Partido dos Trabalhadores, PT, têm sido frequentemente associados a políticas sociais e econômicas progressistas, defendendo questões como justiça social, direitos trabalhistas e redistribuição de renda. No entanto, sua postura em relação à religião tem variado, com alguns partidos de esquerda adotando uma abordagem secular, enquanto outros tentam navegar em um relacionamento complexo com a religiosidade. Por exemplo, o PT tem sido historicamente visto como mais acomodado em relação a grupos religiosos, particularmente o catolicismo progressista e o protestantismo evangélico. O partido tem procurado construir alianças com organizações e lideranças religiosas, reconhecendo a importância social e política da religião no Brasil. Essa abordagem tem se refletido nas políticas e estratégias do PT, como o apoio a iniciativas baseadas na fé e a incorporação da linguagem e do simbolismo religioso em seu discurso político.

    Por outro lado, alguns partidos de esquerda no Brasil têm assumido uma postura mais laica, defendendo uma estrita separação entre religião e política. Eles veem a religiosidade como um obstáculo potencial à mudança social progressiva, muitas vezes criticando as instituições religiosas por seu conservadorismo percebido e influência na política. Esses partidos podem priorizar políticas seculares e enfatizar a importância de abordagens científicas e baseadas em evidências para a formulação de políticas, muitas vezes distanciando-se de grupos e líderes religiosos.

    A relação entre religiosidade e partidos de esquerda no Brasil é complexa e multifacetada. Enquanto alguns partidos de esquerda podem tentar incorporar grupos e crenças religiosas em sua agenda política, outros podem adotar uma abordagem mais secular. Também há casos em que grupos e líderes religiosos podem se alinhar ou endossar partidos de esquerda com base em valores ou interesses compartilhados. No entanto, tensões e conflitos também podem surgir, principalmente quando há diferentes perspectivas sobre questões como direitos reprodutivos, direitos LGBTQ+ ou o papel das instituições religiosas na vida pública.

    Vale notar que a relação entre religião e partidos de esquerda no Brasil é influenciada por fatores sociais, culturais e históricos mais amplos. A história de colonização, escravidão e desigualdade do Brasil moldou o cenário religioso e as ideologias políticas de diferentes grupos. A interação entre religião e política no Brasil também é influenciada por tendências globais, como a ascensão do conservadorismo religioso, o impacto da globalização e a dinâmica de mudança nas comunidades religiosas.

    Em suma, para este historiador, a relação entre religiosidade e partidos de esquerda no Brasil é complexa e dinâmica. Enquanto alguns partidos podem tentar incorporar grupos e crenças religiosas em sua agenda política, outros podem adotar uma abordagem mais secular. Essa relação é influenciada por fatores históricos, culturais e sociais.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Luiz Felipe Pondé: "Deus é uma hipótese elegante"

Em recente entrevista dada ao Portal Imprensa, do UOL, Luis Felipe Pondé mostra que é mais do que um simples liberal conservative ("direitista liberal"). Quando perguntado sobre o Ateísmo, e se este é o que melhor define sua opinião sobre Deus, o filósofo responde:

"O primeiro momento que me lembro como ateu, tinha oito anos. Lembro do dia, inclusive. Tenho o sentimento de que, aos oito ou dez anos, eu já era mais ou menos quem sou hoje. Escrevi isso no livro que eu publiquei com o João Pereira Coutinho e o Denis Rosenfield, “Porque virei à direita” [Ed. Três Estrelas, 2012]. Mas, hoje, acho o ateísmo banal, é a hipótese mais fácil. Ao mesmo tempo, acho Deus uma hipótese elegante. A ideia de que exista um ser inteligente, bondoso, que gerou o mundo, é filosoficamente interessante. Mas, não sinto necessidade no meu dia a dia. Nasci sem órgão metafísico."

Ao meu ver, esta declaração ilustra de forma clara o estado do Ateísmo no Brasil. O "Deus elegante" apresentado por Pondé ilustra, também, a categoria de Deísmo que temos no país. Ao mesmo tempo em que correntes com um grau acentuado de militância corre pelos veículos de informação como a Internet, a característica "confortadora" e "que dá um jeitinho nos problemas cotidianos" de Deus que está presente desde meados do século XX faz com que a religião no país se torne menos rígida do que o próprio Ateísmo. Esta inversão de valores é, na minha visão, passada batida por olhares menos atenciosos exatamente por ser um fenômeno recente e incomum na história de nossa sociedade. Só o tempo dirá se um dia teremos templos e dizimistas ateístas.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Papa Francisco: "Ateus também vão para o céu"

No dia 22 de maio de 2013, o líder da Igreja Católica, Papa Francisco, afirmou durante sua homilia matinal que "(...) o Senhor nos redimiu a todos, a todos nós, no sangue de Cristo (...) não apenas os católicos. Todos!". Após ser indagado sobre a questão dos ateus, Papa Francisco afirmou que "(...) até mesmo os ateístas. Todos". Papa Francisco ainda utilizou um trecho do evangelho de Marcos,  que diz:

"(…) E João lhe respondeu, dizendo: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue.
Jesus, porém, disse: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu   nome e possa logo falar mal de mim. Porque quem não é contra nós, é por nós."

Esta declaração, apesar de não ter sido posta com o intuito de criar uma discussão teológica, segundo o porta-voz do Vaticano, Rev. Thomas Rosica, criou uma série de debates na Internet, principalmente em sites e blogs ateístas. Segundo o próprio porta-voz do Vaticano, "(...) pessoas que conhecem a Igreja Católica não podem ser salvas se recusarem-se a entrar nela ou fazer parte dela”.

terça-feira, 12 de março de 2013

Angelo Scola, Arcebispo de Milão e "preferido" ao título de Papa

As últimas semanas são de grandes especulações sobre a eleição do novo Papa da Igreja Católica, e sucessor de Joseph Ratzinger (Bento XVI) após sua abdicação do trono papal.

As semelhanças com corridas eleitorais políticas são grandes, inclusive no fato de haverem candidatos "preferidos" entre todos os 115 cardeais que votam hoje, dia 12/03. Sobre o fato shitórico para a Igreja, o teólogo vaticanista John Allen Jr. escreveu para o site National Catholic Reporter sobre o cardeal que mais tem chances de subir ao trono papal, Angelo Scola, atual arcebispo de Milão.

"É consenso que de não existe um favorito disparado para o conclave, mas o mais próximo que existe de um “pole-position” é, provavelmente, o cardeal Angelo Scola, arcebispo de Milão, 71 anos.

Scola bebe da mesma fonte intelectual de Bento XVI, sendo um egresso da escola teológica da revista Communio, cofundada pelo jovem Joseph Ratzinger logo após o Concílio Vaticano II (1962-1965). Como jovem teólogo, Scola publicou longas entrevistas com Henri de Lubac e Hans Urs von Balthasar, grandes teólogos de seu tempo.

Durante a graduação, Scola conheceu o famoso padre Luigi Giussani e se tornou parte do movimento Comunhão e Libertação. Recentemente, Scola vem tentando se distanciar um pouco dos ciellini, como são chamados os membros de centro-direita desse grupo, especialmente porque vários líderes políticos italianos associados a ele andam envolvidos em escândalos de corrupção. Mesmo assim, no ambiente eclesial italiano, Scola está intimamente ligado ao movimento, o que tem seus prós e contras – alguns admiram profundamente o Comunhão e Libertação; outros, nem tanto. O elo do grupo com Scola ficou mais forte graças ao “Vatileaks”, que incluía uma carta do sucessor de Giussani a Bento XVI em março de 2011, reclamando que os dois últimos arcebispos de Milão eram críticos demais em relação a certos aspectos da doutrina católica, e sugerindo que Scola era o melhor candidato para sucedê-los.

Intelectualmente, a área de Scola é a antropologia moral, tema que lecionou no Instituto João Paulo II para Estudos Sobre Matrimônio e Família, na Pontifícia Universidade Lateranense, antes se tornar reitor.

Os argumentos a favor de Scola são os seguintes:

Primeiro, ele é um Ratzinger com um apelo um pouco mais popular. Ele se sente à vontade com a imprensa e, às vezes, se sai melhor no improviso que quando prepara um discurso com antecedência. Seus textos podem ser densos às vezes, mas seus comentários espontâneos são acessíveis, informais e cheios de bom humor.

Segundo, como italiano, ele conhece o terreno e sabe se mover dentro da política vaticana. Considerando que achar alguém que tome as rédeas na Cúria Romana é uma prioridade perceptível para muitos cardeais, isso é uma clara vantagem.

Terceiro, Scola tem uma larga experiência pastoral, tendo liderado as arquidioceses de Veneza e Milão. Ele não é um burocrata de carreira, e muitos cardeais têm dito publicamente que desejam um papa com experiência real nas trincheiras pastorais.

Quarto, em 2004 Scola lançou o projeto Oásis, inicialmente destinado a apoiar cristãos no Oriente Médio, mas que se tornou uma plataforma de diálogo com o mundo muçulmano. Já que as relações com o Islã são consideradas um dos principais desafios do próximo papa, o histórico de Scola é outra vantagem.

Mas também há elementos que pesam contra Scola.

Primeiro, como italiano, ele acaba absorvido pelas rivalidades tribais da vida eclesiástica da Itália. Muitos bispos do país ainda têm o pé atrás com o Comunhão e Libertação, vendo-o como poderoso demais, e podem pensar duas vezes antes de votar por um papa ciellino. É importante entender que, em sua maioria, as divisões entre os italianos têm muito pouco a ver com ideologia ou concepções conflitantes sobre a Igreja, embora elas existam. Por exemplo, o círculo mais ligado ao cardeal Camillo Ruini, ex-presidente da conferência episcopal italiana, é visto como mais tradicional que o ligado ao atual presidente, cardeal Angelo Bagnasco. O que define o contraste, na verdade, é a rede de relações pessoais e de apadrinhamento.

Segundo, como Scola é um dedicado ratzingeriano em termos de perfil intelectual, aqueles para quem o próximo papa devesse adotar uma abordagem um pouco diferente – ou pelo menos ter outra lista de prioridades – podem vê-lo como representante de uma continuidade exagerada.

Terceiro, alguns cardeais acreditam que a solução para os problemas de gerenciamento escancarados pelo “Vatileaks” não é eleger outro italiano, mas justamente derrubar a fortificação italiana na cultura interna do Vaticano. Para esse grupo, finalmente chegou a hora de cumprir a antiga promessa de internacionalização do Vaticano, iniciada sob Paulo VI e que passou por surtos sob João Paulo II e Bento XVI.

Quarto, Scola pode sofrer simplesmente por estar sob os holofotes há muito tempo, permitindo que opiniões a seu respeito se cristalizem, e dificultando que se crie um consenso repentino sobre ele. Quais são as perspectivas de Scola como possível sucessor papal? É preciso levar em consideração que outro dos documentos divulgados no escândalo do “Vatileaks” era um memorando anônimo, escrito em alemão e passado a Bento XVI por um cardeal aposentado, e que foi apresentado na mídia italiana como prova de um incrível complô para matar o papa. O papel pretendia descrever observações feitas privadamente pelo cardeal Paolo Romeo, de Palermo (Sicília), em uma viagem à China. Romero teria dito que Bento XVI estaria morto dentro de um ano e seria substituído por um importante cardeal italiano. Seu nome? Angelo Scola. Em uma corrida na qual exposição demais pode ser fatal, essa não é bem uma publicidade que ajuda as chances de Scola.

Os fãs, no entanto, insistem que Scola tem tido tanta visibilidade por tanto tempo justamente porque ele é uma das figuras mais relevantes nos altos escalões da Igreja, e que o fato de ele ter aguentado firme prova que ele tem as qualidades necessárias para ser papa."

Tradução: Marcio Antônio Campos

* John Allen Jr. é um dos mais experientes vaticanistas da atualidade. Jornalista do site norte-americano National Catholic Reporter (http://ncronline.org/), ele também colabora com o canal de televisão CNN e com a National Public Radio norte-americana. Allen é autor de vários livros sobre a Igreja Católica, incluindo duas biografias de Bento XVI, uma delas escrita quando Joseph Ratzinger ainda era cardeal. Duas de suas obras foram traduzidas para o português: Opus Dei, mitos e realidade, de 2005, e Conclave, de 2002, em que ele descreve os rituais que envolvem a sucessão do papa e apontava vários favoritos para assumir o posto após a morte de João Paulo II.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Um dia para Todos os Santos

Hoje, precisamente, é dia 31 de outubro. O mundo vêm conhecendo este dia como o famoso Dia das Bruxas, ou Halloween, festejado na América do Norte e amplamente divulgado pelo mundo. Junto disso, aparecem as famosas correntes de internet "contra" este dia. No caso específico do Brasil, muitas pessoas criticam o nosso modo de vida que busca muito da cultura norte-americana e divulgam o Dia do Saci (o "Haloween brasleiro"). Vamos fazer algumas considerações.

O que é o Dia do Saci? Muitos leigos não sabem a origem deste dia. Implantado por meio de uma lei federal pelo deputado Chico Alencar (PSOL - RJ) no ano de 2003, ficaria decidido que no dia 31 de outubro seria comemorado o Dia do Saci, um dia reservado à comemoração do folclore nacional, combatendo diretamente as festividades do Dia das Bruxas em molde norte-americano. Alguns estados nacionais, como São Paulo, oficializaram a data a partir deste ano, o que fez com que a divulgação fosse amplamente feita pelos meios sociais e informativos.

Mas qual o motivo de uma data como esta ser feita em contraposição á uma comemoração não-nativa brasileira? O significado do Halloween é realmente tão forte a ponto disso? Vejamos. O Allhallow-even é nada mais, nada menos, do que a véspera do Dia de Todos os Santos, na cultura celta. Porém, tem-se registros de comemoração cívica apenas a partir de 1745, nas regiões do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. Estes dois últimos, locais que sofreram a colonização inglesa, portanto, tendo contato direto com a cultura celta, típica das ilhas britânicas. Muito mais do que uma "festa à fantasia", é um dia dedicado á presença dos espíritos e mortos na terra, uma vez que não é possível a passagem de tais entidades para o plano mortal nas outras épocas do ano. Portando, a origem pagã tem a ver com a celebração celta chamada Samhain, que tinha como objetivo dar culto aos mortos. A invasão das Ilhas Britânicas pelos Romanos, em meados do século V, acabou mesclando a cultura latina com a celta, sendo que esta última acabou quase que desaparecendo ao longo dos anos e séculos.

Com efeito, observamos ainda assim a presença do Dia de Todos os Santos, hoje celebrado no dia 1º de novembro. Se buscarmos a origem católica desta data, conseguimos localizar, há mais de 1300 anos atrás, o papa Bonifácio IV, que estipulou as festividades dedicadas á todos os santos existentes, no dia 13 de maio (Festum omnium sanctorum) e realocada no calendário para o dia 1º de novembro, pelo papa Gregório III. No ano de 840, seu sucessor, Gregório IV, ordenou que este dia fosse celebrado universalmente, como temos conhecimento nos dias de hoje. Com um costume latino-cristão, a celebração do dia 31 de outubro era feita como "vigília" de todos os santos, e o dia 2 de novembro, como o dia dos finados, ou os que já faleceram e se foram deste plano para o Paraíso.

Este humilde historiador, então, vê da seguinte forma o Dia do Saci e manifestações de pessoas em sua apologia: esta data se apresenta mais como uma forma xenófoba e de negação de uma festividade mundialmente conhecida e celebrada, visto que tem origens cristãs e não apenas pagãs e como uma forma mesquinha e fraca de exaltação da cultura brasileira. Isso leva á outra discussão muito ampla, sobre a laicidade do estado brasileiro. Mas, no fim, como não reconhecer o Brasil como um país cristão, com a celebração nacional e paralização de serviços nas datas como Carnaval, Páscoa e Natal? Mesmo configurado como uma celebração unicamente pagã, a Vigília de Todos os Santos também tem sua parte cristã, que reclamem ou não, é presente na cultura brasileira. Qual a falta de legitimidade em comemora-lá? Quem sabe um dia fazemos a coisa certa, e ao invés de transformar uma data tão conhecida mundialmente, não investimos mais em cinema, música e artes nacionais?

por Fernando Tetsuo Miyahira.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Morre Eric Hobsbawm, aos 95 anos.

Hoje, logo ao acordar, tive a triste notícia da morte do grande Eric Hobsbawm, considerado o maior historiador vivo da atualidade. Realmente, uma notícia muito triste, pois, sendo historiador de formação, estudei muito dele e principalmente de suas obras durante a graduação (e até fora dela). Por isso, não pude deixar de prestar a minha humilde homenagem ao homem que prestou um serviço tão grande para a humanidade: o estudo da História. Notícia de Carta Capital:

"O historiador marxista britânico Eric Hobsbawm, considerado um dos pensadores imprescindíveis do século passado, morreu nesta segunda-feira 1º aos 95 anos. Dono de uma vasta obra, Hobsbawm tem como livro mais famoso a Era dos Extremos(1994), no qual narra sua perspectiva sobre o que chama de “breve século XX”, o período iniciado com o começo da Primeira Guerra Mundial, em 1914, até o colapso da União Soviética, em 1991. O livro foi traduzido para quase 40 línguas e recebeu muitos prêmios internacionais.
“Ele morreu de pneumonia nas primeiras horas da manhã em Londres”, afirmou a filha do historiador, Julia Hobsbawm. “Ele fará falta não apenas para sua esposa, Marlene, e seus três filhos, sete netos e um bisneto, mas também por seus milhares de leitores e estudantes ao redor do mundo”, completou.
Hobsbawm, que influenciou gerações de historiadores e políticos, é reconhecido também por sua história do “longo século XIX”, que para ele se deu entre o início da Revolução Francesa (1789) e o início da Primeira Guerra Mundial (1914). A história do “longo século XIX” foi publicada em três volumes – A Era da Revolução: Europa 1789-1848, A Era do Capital: 1848-1875 e Era do Império – 1848-1914.

Biografia

Nascido em 9 de junho de 1917 em uma família judaica de Alexandria, Egito, Hobsbawm foi criado em Viena no período entre as duas grandes guerras mundiais, antes de seguir para Berlim em 1931. Ele se mudou para Londres dois anos depois, quando os nazistas chegaram ao poder.
Depois de estudar História e obter o Doutorado na Universidade de Cambridge, Hobsbawm se tornou professor em 1947 no Birkbeck College de Londres, centro ao qual seguiu ligado por toda a carreira. Também foi professor convidado na Universidade de Stanford, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e na Universidade de Cornel."

Descanse em paz, herói.

por Fernando Tetsuo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um conservador católico em uma comunidade islâmica

Apesar de todo alvorosso nos países árabes nos últimos tempos, principalmente após a "Primavera Árabe", a Igreja Católica dá mais uma demonstração de sua necessidade em se atualizar, mostrando uma face menos conservadora. Eis a notícia:

"Beirute - O Papa Bento XVI, que chegou nesta sexta-feira a Beirute para sua primeira visita ao Líbano, rejeitou o fundamentalismo e estimulou a tolerância em uma região afetada pelo violento conflito na Síria, a emergência do islamismo e distúrbios em países árabes.

Esta visita, a segunda de Bento XVI no Oriente Médio - após uma viagem à Terra Santa em 2009 - é uma das viagens mais delicadas do Pontífice, de 85 anos. O Papa desembarcou sorridente e emocionado às 13H40 locais (7H40 de Brasília) no aeroporto internacional de Beirute, onde foi recebido por várias autoridades, incluindo o presidente da República, Michel Suleiman - único cristão chefe de Estado de um país árabe.

Em um contexto de incessante violência na Síria, Bento XVI pediu o fim da entrega de armas a este país, vizinho do Líbano, onde os confrontos entre o exército e os rebeldes provocaram mais de 27.000 mortes, em sua maioria civis. "As importações de armas devem cessar de uma vez por todas. Sem as importações, a guerra não poderia continuar", declarou ainda no avião aos jornalistas. "Ao invés de importar armas, o que é um grave pecado, seria conveniente importar ideias de paz, de criatividade, de amor ao próximo".

Dois dias depois de um ataque na Líbia que matou o embaixador dos Estados Unidos, e com uma série de manifestações no mundo árabe contra um filme americano ofensivo ao islã, Bento XVI se elevou contra o fundamentalismo. "O fundamentalismo é uma falsificação da religião, já que a tarefa da igreja e das religiões é purificar-se", declarou durante o voo."

(retirado de http://www.afp.com/en/home - France Presse)

Conhecido pelo radical conservadorismo, Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI impressiona com discurso antifundamentalista e um tanto mais liberal. O que mais impressiona é o fato de visitar um país com grande maioria muçulmana para realizar o discurso, e sendo aplaudido e ganhando "pontos" com a comunidade islâmica. A estrutura arcaica e ultrapassada de pensamento da Igreja Católica demonstra mais uma vez sua fragilidade, e também a necessidade de se atualizar em tempos onde a liberdade religiosa pede socorro.

por Fernando Tetsuo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A presença pentecostal na mídia brasileira


 O texto a seguir foi apresentado por Beatriz Carunchio e Fernando Tetsuo Miyahira como exame final das aulas de "História das Religiões" do curso de Mestrado em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC - SP).

Neste breve texto, analisaremos um pouco a questão dos fiéis pentecostais e sua relação com a mídia, principalmente o rádio, meio de comunicação preferido dos fiéis pentecostais de “primeira” e “segunda” onda.     
Maria Lúcia Montes (MONTES, 2006) discute qual o espaço para a religião no Brasil durante o século XX, citando a presença crescente de pentecostais em relação aos católicos, uma vez que o Brasil pode ser encarado como “um país católico”. Segundo a autora, o crescimento dos evangélicos, que lhes deu visibilidade pública, se refletiu também no interior do próprio grupo, que desde a década de 80 procura, agressivamente, marcar sua presença na cena pública, principalmente valendo-se da força política após conseguirem a eleição de uma “bancada evangélica” no congresso nacional durante a mesma época. Mas, apenas isso faria com que o crescimento vertiginoso dos pentecostais crescesse no Brasil do século XX?
O que conseguimos identificar com a leitura do texto de Maria Lúcia Montes é a convergência dos pentecostais com a questão da mídia no Brasil, ou seja, os pentecostais, durante sua história no Brasil, utilizaram-se muito dos meios de comunicação em massa, principalmente o rádio quando falamos de pentecostalismo de “primeira” e “segunda” ondas. Aqui, nos preocuparemos em traçar um histórico do grupo dos pentecostais no Brasil, e a importância da mídia como meio de comunicação em massa enquanto instrumento que viabilizou o crescimento desse grupo religioso.
  
           Chegada e presença dos pentecostais no Brasil

Aqui temos a teoria das três ondas de Paul Freston, explicando o desenvolvimento histórico do pentecostalismo no Brasil. Segundo Freston, em “Evangelical Christianity And Democracy In Latin America” [1] a primeira onda pentecostal começou em meados do ano de 1910, com a chegada de missionários que mais tarde fundariam a Congregação Cristã (CC) e a Assembléia de Deus (AD), esta última em 1911. Tanto a CC como a AD nasceram de grupos influenciados pelo movimento pentecostal dos Estados Unidos, e acabam por desenvolver uma relação de proximidade com as igrejas protestantes norte-americanas e suecas. A CC teve muito sucesso junto aos imigrantes italianos em São Paulo, principalmente por tratar-se de uma prática que foi trazida por um artesão, também italiano e vindo dos Estados Unidos, de nome Luigi Francescon. Já a AD foi fundada em Belém, no estado do Pará por dois missionários norte-americanos, Gunnar Vingren e Daniel Berg, expandindo-se para todo o Norte e Nordeste do país, e depois para todo o território nacional, auxiliada pela grande repercussão entre as pessoas de mais baixa renda e também pelo fenômeno de urbanização no Brasil a partir do século XX. A Assembléia de Deus acaba de tornando a maior igreja pentecostal (e protestante) do Brasil, com mais de 7 milhões de fiéis. Tanto a CC quanto a AD contam com um rigoroso seguimento da fé, moral e costumes. Outra característica destas igrejas pentecostais é o não uso de meios de comunicação ditos modernos, como a televisão, rádio e Internet, pois pregam que os contatos pessoais (tanto como missão quanto nos cultos dos templos) são os únicos e verdadeiros meios de comunicação aprovados por Deus.
A segunda onda pentecostal trata-se do crescimento do movimento pentecostal de primeira onda nos anos 50 e início dos 60, correspondendo também com uma alta atividade missionária norte-americana no Brasil. De todas as igrejas surgidas nesta época, destacam-se três: a Igreja do Evangelho Quadrangular surgida em 1951, a Brasil para Cristo, de 1955 e a Deus é Amor, de 1962. Suas características em comum é o fato de terem sido iniciadas no estado de São Paulo, tal como se caracterizar por movimentos semelhantes á Renovação Carismática Católica e por enfatizarem muito questão da “cura divina”, ou seja, a cura de doenças graves como câncer, AIDS, etc, através da fé e da oração do pastor junto dos fiéis. Além de sua mensagem dirigir-se quase que unicamente à população muito pobre e desamparada, é mais liberal em termos de meios de comunicação do que as igrejas pentecostais de primeira onda, admitindo a comunicação via rádio e folhetins distribuídos nas próprias igrejas.
Finalmente, as igrejas pentecostais de terceira onda são denominadas também, por Freston, de “neopentecostais”, pois não apresentam ligação nenhuma com as matrizes protestantes que direcionaram as ondas anteriores. Características dos anos 70, as suas representantes mais fortes são a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), de 1977, a Igreja Internacional da Graça de Deus de 1980, e a mais recente, a Igreja Mundial do Poder de Deus, de 1998. As duas últimas surgidas depois de um desmembramento da Igreja Universal do Reino de Deus. Tais igrejas se caracterizam pela adaptação do quadro sócio-cultural brasileiro da década de 70, como o inchamento urbano, desenraizamento cultural e estagnação econômica, por isso uma de suas marcas é a chamada Teologia da Prosperidade, que consiste em um movimento surgido nas primeiras décadas do século XX nos EUA, consistindo em uma doutrina que afirma, a partir da interpretação de alguns textos bíblicos como Gênesis 17.7, Marcos 11.23-24 e Lucas 11.9-10, que os que são verdadeiramente fiéis a Deus devem desfrutar de uma excelente situação principalmente na área financeira e na área da saúde.

A mídia no Brasil 

Existem diversas definições para o termo mídia. Dias (2006) afirma que mídia veio do latim media, que quer dizer “meios”. Para o autor, este é um conceito não apenas ligado aos meios de comunicação de massa, mas também intimamente relacionado à publicidade, o que nos leva a questionar se, com isso, o conceito de mídia também não estaria ligado às ideologias que são veiculadas nos meios de comunicação, seja através da publicidade, seja através dos ídolos que promove. Duarte, Leite e Migliora (2006) definem mídia como a institucionalização do processo no qual diferentes agentes reunidos entram em confronto para chegar a uma síntese de significados, normalmente provisória. Já Coimbra (2001) sugere que a mídia é o principal instrumento de produção de significados e de formas de interpretar o mundo. Assim, não mostra apenas o que pensar, sentir e como agir, mas nos mostra sobre o que devemos pensar, sentir e agir. Isso nos leva a pensar que os ídolos e/ou ideologias que a mídia veicula de fato contribuem para o sentido que a pessoa dá a sua própria vida.
Outra informação essencial antes de prosseguir nesta discussão é que, segundo Thompson (2005), ao serem veiculadas pela mídia, as formas simbólicas passam por uma valorização econômica, ou seja, recebem um preço, um valor pelo qual são compradas ou vendidas. Deste modo, continua o autor, tornam-se bens simbólicos. Ou seja, pessoas/ídolos, informações, cultos religiosos e tudo o que a mídia veicula, torna-se uma mercadoria.
No nosso país, notamos que há uma grande ênfase na mídia eletrônica em detrimento das demais, tanto entre a população quanto nos meios acadêmicos, nos quais constatamos haver uma grande oferta de artigos e trabalhos principalmente sobre a televisão. Para Duarte, Leite e Migliora (2006), isso ocorre porque no Brasil, a grande maioria da população não se modernizou com informações de livros, e sim do rádio e da televisão. Com isso, a televisão é muito associada à inteligência (e inteligência é, para muitos, o mesmo que ter muita informação, mesmo que nem sempre essas informações sejam utilizadas na formação de um pensamento crítico).
Coimbra (2001), Mota (2004) e Dias (2006) ressaltam que a televisão se desenvolveu mais no Brasil no período da ditadura militar. Coimbra (2001) afirma que as telecomunicações eram associadas pelos militares ao desenvolvimento, modernização e segurança nacional. Por isso, afirma Mota (2004), foram instaladas redes nacionais, com a construção de estações repetidoras e a instalação de satélites. Para a autora, as redes nacionais integraram o país e facilitaram o controle da comunicação por parte dos militares.
Dias (2006) afirma que, ainda durante a ditadura militar, foi criado o Ministério das Telecomunicações, assim como políticas para o financiamento de televisores. Com isso, os militares pretendiam garantir o acesso da maior parte possível da população ao “milagre brasileiro da economia”, à Copa de 1970 e à transmissão ao vivo do carnaval do Rio. O autor comenta que, em menor proporção, esta foi a mesma estratégia utilizada pelo Ministro da Propaganda e da Informação da Alemanha nazista.

 Considerações Finais

Como mencionamos, ao veicular bens simbólicos, a mídia os transforma em produtos. Paralelo a isso, é popular no Brasil o pensamento de que aquilo que está na mídia é “bom” e “verdadeiro”. Essa idéia faz com que as informações veiculadas tendam a ser aceitas mais facilmente pela população. Assim, os “produtos” oferecidos pela mídia serão valorizados e consumidos, sem que haja maiores críticas por parte da grande maioria das pessoas.
Ao pensar o crescimento do pentecostalismo no Brasil, não podemos deixar de pensar no papel que a mídia teve ao transformá-lo em produto, ou melhor, em um bem de consumo.
Entretanto, devemos sempre ter em mente que, no caso de crenças religiosas, tal como em toda ideologia que se serve à interpretação da realidade, existe uma dimensão simbólica desse bem de consumo. Quem o consome, não “adquire” apenas uma religião e o status que ela traz, mas também “compra” imunidade contra o que Maria Lucia Montes chama no artigo estudado de “situações limite”, mas que os fiéis identificam apenas como “o Mal”: seja o Mal simbólico, representado na figura do demônio, seja o mal da vida cotidiana (doenças físicas e mentais, alcoolismo e dependência química, desemprego, miséria, problemas familiares, etc.). Concluindo, o que se compra não é apenas uma religião e uma forma de interpretar o mundo, mas sim um projeto político: a idéia de que uma vida melhor é possível, com saúde, trabalho e dignidade.  Compram a certeza de que se é merecedor de uma vida digna (aqui e agora), a chance de ser visto como ser humano.

  
BIBLIOGRAFIA
COIMBRA, C. M. B. “Mídia e produção de modos de existência”. Psicologia: teoria e pesquisa. Vol. 17, no 1, p. 01-04. Jan-Abr 2001.

CORTEN, André. “Pentecostalism In Brazil: Emotion Of The Poor And Theological Romanticism”. Palgrave, EUA: 1999.

DIAS, J. V. “Comunicação subliminar na mídia: propaganda televisiva na perspectiva da ética e cidadania”. 2006, 135 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social). Universidade São Marcos, São Paulo.

DUARTE, R.; LEITE,  C. e MIGLIORA, R. “Crianças e televisão: o que elas pensam sobre o que aprendem com a tevê”. Revista Brasileira de Educação. Vol. 11, no 33, p. 497-510, set./dez. 2006.

FRESTON, Paul. “Evangelical Christianity And Democracy In Latin America” EUA: Oxford University Press, 2008.

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. “O protestantismo no Brasil e suas Encruzilhadas”, in Revista USP, n. 67, São Paulo: 2005.

MONTES, Maria Lúcia. “As figuras do sagrado: entre público e privado” in NOVAES, Fernando A. História da Vida Privada no Brasil vol. 4. SP: Companhia das Letras: 2006.

MOREIRA, Alberto. “Neopentecostalismo e Mercado de Trabalho”. SP: EDUSF, 1996.

MOTA, R. “Uma pauta pública para uma nova televisão brasileira”. Revista de sociologia e política. No 22, p. 77-86, jun 2004.

NOVAES, Regina Reyes. “Pentecostalismo, política, mídia e favela”, in VALLA, Victor Vincente, Religião e Cultura popular, Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

THOMPSON, J. B. “A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia”. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2005.




[1] A idéia das Três Ondas do Pentecostalismo está contida em FRESTON, Paul. “Evangelical Christianity And Democracy In Latin America”.
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por Beatriz Carunchio e Fernando Tetsuo Miyahira

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Vaticano apoia Federico Franco, novo presidente do Paraguai

De acordo com o site do jornal Tiempo Argentino, a Igreja foi a primeira instituição religiosa a reconhecer o impeachment ocorrido no Paraguai neste último mês. Segundo as notícias, o núncio apostólico no Paraguai, Eliseo Arrioti, reuniu-se com o presidente Federico Franco e anunciou que o Vaticano seria o primeiro estado a reconhecer sua posse.

"El nuncio apostólico del Vaticano en Paraguay, Eliseo Ariotti, se reunió con Federico Franco, con lo cual el Vaticano se convirtió en el primer Estado en reconocer al nuevo presidente paraguayo y en admitir el golpe contra el ex obispo Fernando Lugo.

Ariotti fue uno de los primeros en ser recibido por el nuevo jefe de Estado, quien sólo podía atesorar en su favor un reconocimiento formal de Alemania –que no ve una interrupción constitucional en el jucio político express contra el mandatario constitucional– y de Estados Unidos, que se limitó por ahora a pedir “calma” a la sociedad paraguaya.

Luego de la audiencia con Franco, el representante del Papa Benedicto XVI manifestó su intención de “honrar a las autoridades” y pidió paz para el país, tras lo cual acotó que el Santo Padre envió un mensaje al país.

El prelado evitó dar a conocer detalles de la conversación mantenida con Franco. “Fue una conversación muy personal”, expresó a su salida del Palacio de Gobierno.
Ariotti señaló que “la paz es un don de Dios y sobre todo un don de los hombres”, y se mostró cauto en torno al reconocimiento oficial de los países hacia la nueva administración del Ejecutivo paraguayo.

A su turno, el ministro alemán de Cooperación Económica y Desarrollo, Dirk Niebel, declaró en Asunción que “no existen señales de que el cambio de gobierno haya sido inconstitucional”, tras reunirse en el Palacio de Gobierno con Franco. Pero al mismo tiempo advirtió que “el resultado de las votaciones en el Congreso que llevaron a la destitución del presidente Fernando Lugo son un mensaje político claro”.
Mientras tanto, Darla Jordan, portavoz del Departamento de Estado, instó a que los paraguayos 'actúen de forma pacífica, con calma y responsabilidad, conforme al espíritu de los principios democráticos' ".

As fontes são do blog de notícias Atrio (http://www.atrio.org) e do site do jornal argentino Tiempo Argentino (http://tiempo.infonews.com/).

Por Fernando Tetsuo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"O Nascimento das Religiões" - Parte II

Dissemos no post anterior, segundo Yves Laurant, sobre seu trabalho extensivo de pesquisa sobre o nascimento da religiosidade e sentimento religioso. Ainda sob a perspectiva de Laurant, a origem da religiosidade se encontra nas religiões xamânicas da sibéria, mais precisamente do povo Evenque.

Dada essa discussão inicial, no capítulo posterior Laurant disserta sobre a evolução do xamanismo na História, durante e pós a Revolução Neolítica, momento onde muitos povos deixaram seu estilo de vida nômade para se sedentarizarem e criar animais e praticar a agricultura. Dado que a Revolução Neolítica, ou a Revolução Agropastoril, como coloca Laurant, criou uma barreira de "superioridade" entre homens e animais, sua tese é de que o xamanismo como religião tipicamente nômade, de caça e de igualdade espiritual entre homens e animais, necessitou de uma evolução(¹), ou mudança. Como pergunta, podemos formular o seguinte: Se a Religião cuida, neste momento, exclusivamente da atividade caçadora, qual o lugar que assume nas sociedades hidráulicas, pós Revolução Neolítica?

Nesta brevíssima dissertação, podemos identificar alguns itens da qual Laurant aponta como principais mudanças do Xamanismo, ainda na região da Sibéria, quanto á sedentarização de algumas sociedades. Primeiramente, o crescimento populacional muda drasticamente a sociedade, criando hierarquias entre as pessoas entre pequenos e grande criadores/agricultores. Igualmente, é criado um tipo de, segundo Laurant, estatuto da velhice, onde a idade é celebrada e idolatrizada, criando a noção de ancestralidade. Em outras palavras, o culto aos ancestrais, mais velhos e que já foram, é apontado como principal mudança das novas sociedades, espiritualmente falando. Com a mudança de tamanho dos grupos, estes clãs e linhagens acabam se definindo com referência á estes ancestrais, ou defuntos, como coloca o autor. Então, da ação de caçadores para pastores-coletores, aparecem mudanças como:

1) laço com as almas dos ancestrais antes da antiga relação de irmandade que humanos tinham com animais;
2) a representação do mundo passa de horizontal para vertical, ou seja, há a criação de uma hierarquia espiritual, envolvendo espíritos do mundo "palpável" da qual a perspectiva horizontal, igualitária do mundo passa para uma visão de mundo dominada por instâncias superiores;
3) surgimento de ritos essenciais, como a prece e o sacrifício;
4) mudança de noção de males como contrapartida (em uma linguagem simples, o famoso "toma lá, da cá") para males como sanções, ou castigo divino;
5) introdução de noções de graça por meio de sacrifícios, demonstrando uma nova desigualdade espiritual entre os seres;
6) um isolamento do xamanismo como ritual para curas individuais e adivinhação.

Laurant ainda cita por muitas vezes Roberte Hamayon, antropóloga francesa e atual diretora da École Pratique des Hautes Études. Hamayon cita em um de seus artigos uma sociedade de pastores-caçadores ehirit-bulagat, da qual acreditavam ser descendentes do "Senhor Touro" (Buha-Nojon), e que dele vinha seus rebanhos, pastagens, territórios e conhecimentos. Então, podemos identificar também a criação de um "ser supremo", alguma força ou alguma entidade criadora, que dele(a) provém tudo que há na terra e tudo que é conseguido pelos seus seguidores. Essa noção de "ser supremo" certamente deriva da forte hierarquização espiritual da qual tais sociedades estão passando. Por isso, a necessidade de venerar e implorar para estas já chamadas divindades.

Enxergamos também a importância dos sacrifícios nestas sociedades hidráulicas. Enquanto no xamanismo "tradicional" o xamã é visto como um intermediário nas barganhas entre o homem e os espíritos, conversando com eles e sabendo suas "artimanhas", no xamanismo "adaptado" não há necessidade de entender o que os espíritos dizem, e sim um "pedido de graça" é feito por meio de preces, onde o sacrifício entra como "pre-requisito" para a obtenção desta graça. Enquanto o caçador primeiro obtém e dá em seguida, o pastor primeiro oferece, tendo em vista conseguir depois, mas pegando aquilo que "produziu.

Ao contrário, a "punição" ou "castigo" é dada pelos ancestrais e espíritos superiores pelo "deixar de fazer". Suas sanções são aplicadas contra ações que transgridem uma ordem, hierarquia ou mandamento dado. Aqui percebemos a diferença com o xamanismo "tradicional", da qual punições são dadas por transgressões feitas, diferente do xamanismo "adaptado" que pune por rituais ou ações não feitas.

Por fim, o papel do xamã muda drasticamente durante a Revolução Neolítica. Ele acaba por perder suas funções coletivas quando a importância da caça diminui, e sobretudo quando a sociedade se hierarquiza colocando novas "divindades toda-poderosas" em seu lugar. Outro fator que auxilia na perda de importância do xamã é a criação de uma linguagem e escrita, da qual é possível a criação de uma liturgia utilizando-os. Portanto, o xamã acabou por recolher-se ao ambiente privado, praticando curas pessoais e bênçãos particulares e pontuais. Lambert ainda identifica, neste tipo de xamanismo "adaptado" a ampla presença de mulheres, provavelmente pela importância espiritual não estar mais no xamã. Não por "machismo" no sentido moderno, mas sim pela sociedade basicamente patriarcal e cultura centrada no criador e agricultor, funções desempenhadas primariamente pelo homem nestas sociedades. A presença das mulheres, ao contrário do que se imagina, está mais centrada no xamanismo branco, ou seja, de benfazejo, enquanto a presença masculina é mais comum no xamanismo negro, prejudicial e especialista em destruição e praga. Nota-se também que a separação entre xamanismos brancos e negros surgem bem posteriormente, com talvés a influência budista ou cristã.




(¹) Aqui, colocamos o termo "evolução" não na errônea intenção de "superioridade". Entendemos "evolução" como fatores que fazem com que determinado ser vivo, sociedade ou até mesmo utensílios sejam mais apropriados e/ou adaptados para novas condições de existência.

por Fernando Tetsuo Miyahira.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"O Nascimento das Religiões" - ótima leitura para estudos introdutórios à Religião

O Professor em Sociologia da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Yves Lambert, realmente surpreendeu com esta publicação: uma compilação de seus estudos no campo religioso, comentada e resumida. Utilizando-se da "história comparada das religiões", Lambert consegue dissertar, em uma linguagem simples porém acadêmica, sobre o surgimento da religiosidade em povos antepassados, que acabam por culminar no que hoje conhecemos como "religião".

Yves Lambert faleceu em 2006, aos 60 anos, foi professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales, pesquisador do Groupe Société, Religions, Laïcités (CNRS-EPHE) e grande atuante no campo da sociologia na França.

Mesmo sendo uma obra extensa e pesada, sua linguagem, como dito anteriormente, é de fácio acesso mas não perdendo o foco acadêmico de suas pesquisas. "O Nascimento das Religiões: da pré-história ás religiões universalistas" é uma leitura importante e bem esclarecedora para quem está inciando seus estudos em Ciências da Religião, Teologia ou mesmo História. O que acabou mais chamando a atenção foi a parte inicial de sua obra. Lambert remonta aos estudos de Emilie Durkheim e James Frazer para fundar seus argumentos de como a religiosidade nasceu nos meios humanos. Voltando a atenção aos povos caçadores-coletores, Lambert esmiuça a palavra "xamã", que deu origem ás pessoas que incorporavam espíritos naturais a fim de ajudar seu povo na caça, principal atividade destes povos.

 Tomando como exemplo o povo evenque, um povo semi-nômade ainda existente na Sibéria, Lambert identifica os focos iniciais de religiosidade neles. Primeiro, o fato de serem caçadores-coletores, ou seja, surgirem antes da Revolução Neolítica, faz com que sua mentalidade tenha despertado um certo interesse em "moldar" o mundo aos desejos destes homens, uma vez que o desejo de interferirem de forma espiritual na caçada para que seja bem sucedida era existente. Apesar de haver indícios destes desejos anteriores ao povo evenque, e em lugares diferentes (como as pictografias em cavernas francesas da região sul do país), Lambert justifica sua escolha como sendo o primeiro povo que unificou e codificou, mesmo em linguagem verbal, suas características ritualísticas e espirituais na figura do Xamã. Em uma mistura de animismo e naturismo, Lambert volta sua atenção á interpretação de sonhos e contato dos evenques com elementos da natureza. 1) A presença da "alma" já havia sido investigada por Durkheim; por meio dos sonhos, este povo acreditava que seu "eu" interior saía do corpo hospedeiro á noite para vagar pela terra; 2) A observação da natureza, mais precisamente na figura dos animais, que eram além de sua caça também seus companheiros em terra, fez com que os evenques dotassem os animais dos mesmos princípios vitais dos homens. Neste ponto, segundo Lambert, havia uma "troca de princípios vitais" entre homem e animal, justificando seu consumo. O animal, quando caçado e morto, tinha sua alma dispersada na natureza para reencarnar, talvéz, em um corpo humano mais tarde, enquanto seu corpo era consumido junto com sua energia vital pelos homens. Quando estes morrem, voltam á natureza de duas formas: seu corpo volta á terra, que dá origem á vegetação, que por sua vez é consumida pelos animais, e sua alma reencarna em um corpo animal, criando assim um ciclo de reencarnação entre homem e animal. Lambert cita L. Delaby, e compara este ciclo com o fluxo do rio Lenissei, ao norte da Rússia), onde a nascente do rio é um lugar onde as almas, humanas e animais, esperam pare reencarnar, o seu curso é o mundo físico, onde há trocas vitais entre humanos e animais, e sua desembocadura seria o "mundo dos mortos", primeiro lugar onde as almas vão depois que morrem e esperar o momento em que, na forma de pássaros, voltem á nascente do rio para voltar ao mundo físico.

Um dos papéis do xamã pode ser localizado aqui, na figura de "guardião espiritual" das almas, cuidando delas para que possam reencarnar. Percebe-se aqui a grande importância do xamã, que está sempre em contato com o mundo espiritual desde sua "escolha": são os espíritos da natureza que o escolhem, sempre através dos sonhos. Para ser um xamã, é preciso ter "talento" para isso, pois os espíritos não escolhem qualquer pessoa. Após sofrer uma investidura do mundo espiritual (guiado e observado pelo xamã-mor do povo), sua própria comunidade o investe de poderes, acreditando nele e elaborando ritos de passagem para o novo xamã. Outra importância sua vem justamente do ofício caçador evenque: o xamã é o responsável pelos ritos pré-caçada. O xamã então "pede" aos espíritos que possam caçar e tenham sua bênção para matar animais. Este ponto é muito interessante, pois precisavam da autorização dos espíritos para matar os animais. É importante ressaltar que, no meio social dos evenques, nenhum animal pode ser morto sem o consentimento dos espíritos, uma vez que os animais dão sua energia vital para os homens e que os animais um dia já foram homens. Portanto, podemos entender a caçada realmente como uma necessidade, não um mero capricho. Caso os espíritos sejam desobecedidos ou desrespeitados, há o que Lambert chama de "alma fraca", ou seja, a doença, o desânimo, a depressão e até a morte. Qualquer morte "não natural" é vista como uma transgressão ao mundo espiritual, portanto, fora de seu curso natural.

Lambert continua seus estudos com a ideia de adaptação do xamanismo à sociedade agro-pastoril, fruto da Revolução Neolítica. Sabendo que o xamanismo é próprio de sociedades caçadoras-coletoras, o autor disserta sobre sua função nestas sociedades sedentárias, que produzem seu próprio alimento sem a necessidade primordial de caçar animais silvestres.

Veremos isto mais á frente, conforme minha leitura for progredindo. Por enquanto, esta é a bibliografia da leitura:

LAMBERT, Yves. "O Nascimento das Religiões". São Paulo - SP: Ed. Loyola, 2011.

por Fernando Tetsuo Miyahira.