quinta-feira, 5 de julho de 2012

Vaticano apoia Federico Franco, novo presidente do Paraguai

De acordo com o site do jornal Tiempo Argentino, a Igreja foi a primeira instituição religiosa a reconhecer o impeachment ocorrido no Paraguai neste último mês. Segundo as notícias, o núncio apostólico no Paraguai, Eliseo Arrioti, reuniu-se com o presidente Federico Franco e anunciou que o Vaticano seria o primeiro estado a reconhecer sua posse.

"El nuncio apostólico del Vaticano en Paraguay, Eliseo Ariotti, se reunió con Federico Franco, con lo cual el Vaticano se convirtió en el primer Estado en reconocer al nuevo presidente paraguayo y en admitir el golpe contra el ex obispo Fernando Lugo.

Ariotti fue uno de los primeros en ser recibido por el nuevo jefe de Estado, quien sólo podía atesorar en su favor un reconocimiento formal de Alemania –que no ve una interrupción constitucional en el jucio político express contra el mandatario constitucional– y de Estados Unidos, que se limitó por ahora a pedir “calma” a la sociedad paraguaya.

Luego de la audiencia con Franco, el representante del Papa Benedicto XVI manifestó su intención de “honrar a las autoridades” y pidió paz para el país, tras lo cual acotó que el Santo Padre envió un mensaje al país.

El prelado evitó dar a conocer detalles de la conversación mantenida con Franco. “Fue una conversación muy personal”, expresó a su salida del Palacio de Gobierno.
Ariotti señaló que “la paz es un don de Dios y sobre todo un don de los hombres”, y se mostró cauto en torno al reconocimiento oficial de los países hacia la nueva administración del Ejecutivo paraguayo.

A su turno, el ministro alemán de Cooperación Económica y Desarrollo, Dirk Niebel, declaró en Asunción que “no existen señales de que el cambio de gobierno haya sido inconstitucional”, tras reunirse en el Palacio de Gobierno con Franco. Pero al mismo tiempo advirtió que “el resultado de las votaciones en el Congreso que llevaron a la destitución del presidente Fernando Lugo son un mensaje político claro”.
Mientras tanto, Darla Jordan, portavoz del Departamento de Estado, instó a que los paraguayos 'actúen de forma pacífica, con calma y responsabilidad, conforme al espíritu de los principios democráticos' ".

As fontes são do blog de notícias Atrio (http://www.atrio.org) e do site do jornal argentino Tiempo Argentino (http://tiempo.infonews.com/).

Por Fernando Tetsuo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"O Nascimento das Religiões" - Parte II

Dissemos no post anterior, segundo Yves Laurant, sobre seu trabalho extensivo de pesquisa sobre o nascimento da religiosidade e sentimento religioso. Ainda sob a perspectiva de Laurant, a origem da religiosidade se encontra nas religiões xamânicas da sibéria, mais precisamente do povo Evenque.

Dada essa discussão inicial, no capítulo posterior Laurant disserta sobre a evolução do xamanismo na História, durante e pós a Revolução Neolítica, momento onde muitos povos deixaram seu estilo de vida nômade para se sedentarizarem e criar animais e praticar a agricultura. Dado que a Revolução Neolítica, ou a Revolução Agropastoril, como coloca Laurant, criou uma barreira de "superioridade" entre homens e animais, sua tese é de que o xamanismo como religião tipicamente nômade, de caça e de igualdade espiritual entre homens e animais, necessitou de uma evolução(¹), ou mudança. Como pergunta, podemos formular o seguinte: Se a Religião cuida, neste momento, exclusivamente da atividade caçadora, qual o lugar que assume nas sociedades hidráulicas, pós Revolução Neolítica?

Nesta brevíssima dissertação, podemos identificar alguns itens da qual Laurant aponta como principais mudanças do Xamanismo, ainda na região da Sibéria, quanto á sedentarização de algumas sociedades. Primeiramente, o crescimento populacional muda drasticamente a sociedade, criando hierarquias entre as pessoas entre pequenos e grande criadores/agricultores. Igualmente, é criado um tipo de, segundo Laurant, estatuto da velhice, onde a idade é celebrada e idolatrizada, criando a noção de ancestralidade. Em outras palavras, o culto aos ancestrais, mais velhos e que já foram, é apontado como principal mudança das novas sociedades, espiritualmente falando. Com a mudança de tamanho dos grupos, estes clãs e linhagens acabam se definindo com referência á estes ancestrais, ou defuntos, como coloca o autor. Então, da ação de caçadores para pastores-coletores, aparecem mudanças como:

1) laço com as almas dos ancestrais antes da antiga relação de irmandade que humanos tinham com animais;
2) a representação do mundo passa de horizontal para vertical, ou seja, há a criação de uma hierarquia espiritual, envolvendo espíritos do mundo "palpável" da qual a perspectiva horizontal, igualitária do mundo passa para uma visão de mundo dominada por instâncias superiores;
3) surgimento de ritos essenciais, como a prece e o sacrifício;
4) mudança de noção de males como contrapartida (em uma linguagem simples, o famoso "toma lá, da cá") para males como sanções, ou castigo divino;
5) introdução de noções de graça por meio de sacrifícios, demonstrando uma nova desigualdade espiritual entre os seres;
6) um isolamento do xamanismo como ritual para curas individuais e adivinhação.

Laurant ainda cita por muitas vezes Roberte Hamayon, antropóloga francesa e atual diretora da École Pratique des Hautes Études. Hamayon cita em um de seus artigos uma sociedade de pastores-caçadores ehirit-bulagat, da qual acreditavam ser descendentes do "Senhor Touro" (Buha-Nojon), e que dele vinha seus rebanhos, pastagens, territórios e conhecimentos. Então, podemos identificar também a criação de um "ser supremo", alguma força ou alguma entidade criadora, que dele(a) provém tudo que há na terra e tudo que é conseguido pelos seus seguidores. Essa noção de "ser supremo" certamente deriva da forte hierarquização espiritual da qual tais sociedades estão passando. Por isso, a necessidade de venerar e implorar para estas já chamadas divindades.

Enxergamos também a importância dos sacrifícios nestas sociedades hidráulicas. Enquanto no xamanismo "tradicional" o xamã é visto como um intermediário nas barganhas entre o homem e os espíritos, conversando com eles e sabendo suas "artimanhas", no xamanismo "adaptado" não há necessidade de entender o que os espíritos dizem, e sim um "pedido de graça" é feito por meio de preces, onde o sacrifício entra como "pre-requisito" para a obtenção desta graça. Enquanto o caçador primeiro obtém e dá em seguida, o pastor primeiro oferece, tendo em vista conseguir depois, mas pegando aquilo que "produziu.

Ao contrário, a "punição" ou "castigo" é dada pelos ancestrais e espíritos superiores pelo "deixar de fazer". Suas sanções são aplicadas contra ações que transgridem uma ordem, hierarquia ou mandamento dado. Aqui percebemos a diferença com o xamanismo "tradicional", da qual punições são dadas por transgressões feitas, diferente do xamanismo "adaptado" que pune por rituais ou ações não feitas.

Por fim, o papel do xamã muda drasticamente durante a Revolução Neolítica. Ele acaba por perder suas funções coletivas quando a importância da caça diminui, e sobretudo quando a sociedade se hierarquiza colocando novas "divindades toda-poderosas" em seu lugar. Outro fator que auxilia na perda de importância do xamã é a criação de uma linguagem e escrita, da qual é possível a criação de uma liturgia utilizando-os. Portanto, o xamã acabou por recolher-se ao ambiente privado, praticando curas pessoais e bênçãos particulares e pontuais. Lambert ainda identifica, neste tipo de xamanismo "adaptado" a ampla presença de mulheres, provavelmente pela importância espiritual não estar mais no xamã. Não por "machismo" no sentido moderno, mas sim pela sociedade basicamente patriarcal e cultura centrada no criador e agricultor, funções desempenhadas primariamente pelo homem nestas sociedades. A presença das mulheres, ao contrário do que se imagina, está mais centrada no xamanismo branco, ou seja, de benfazejo, enquanto a presença masculina é mais comum no xamanismo negro, prejudicial e especialista em destruição e praga. Nota-se também que a separação entre xamanismos brancos e negros surgem bem posteriormente, com talvés a influência budista ou cristã.




(¹) Aqui, colocamos o termo "evolução" não na errônea intenção de "superioridade". Entendemos "evolução" como fatores que fazem com que determinado ser vivo, sociedade ou até mesmo utensílios sejam mais apropriados e/ou adaptados para novas condições de existência.

por Fernando Tetsuo Miyahira.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"O Nascimento das Religiões" - ótima leitura para estudos introdutórios à Religião

O Professor em Sociologia da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Yves Lambert, realmente surpreendeu com esta publicação: uma compilação de seus estudos no campo religioso, comentada e resumida. Utilizando-se da "história comparada das religiões", Lambert consegue dissertar, em uma linguagem simples porém acadêmica, sobre o surgimento da religiosidade em povos antepassados, que acabam por culminar no que hoje conhecemos como "religião".

Yves Lambert faleceu em 2006, aos 60 anos, foi professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales, pesquisador do Groupe Société, Religions, Laïcités (CNRS-EPHE) e grande atuante no campo da sociologia na França.

Mesmo sendo uma obra extensa e pesada, sua linguagem, como dito anteriormente, é de fácio acesso mas não perdendo o foco acadêmico de suas pesquisas. "O Nascimento das Religiões: da pré-história ás religiões universalistas" é uma leitura importante e bem esclarecedora para quem está inciando seus estudos em Ciências da Religião, Teologia ou mesmo História. O que acabou mais chamando a atenção foi a parte inicial de sua obra. Lambert remonta aos estudos de Emilie Durkheim e James Frazer para fundar seus argumentos de como a religiosidade nasceu nos meios humanos. Voltando a atenção aos povos caçadores-coletores, Lambert esmiuça a palavra "xamã", que deu origem ás pessoas que incorporavam espíritos naturais a fim de ajudar seu povo na caça, principal atividade destes povos.

 Tomando como exemplo o povo evenque, um povo semi-nômade ainda existente na Sibéria, Lambert identifica os focos iniciais de religiosidade neles. Primeiro, o fato de serem caçadores-coletores, ou seja, surgirem antes da Revolução Neolítica, faz com que sua mentalidade tenha despertado um certo interesse em "moldar" o mundo aos desejos destes homens, uma vez que o desejo de interferirem de forma espiritual na caçada para que seja bem sucedida era existente. Apesar de haver indícios destes desejos anteriores ao povo evenque, e em lugares diferentes (como as pictografias em cavernas francesas da região sul do país), Lambert justifica sua escolha como sendo o primeiro povo que unificou e codificou, mesmo em linguagem verbal, suas características ritualísticas e espirituais na figura do Xamã. Em uma mistura de animismo e naturismo, Lambert volta sua atenção á interpretação de sonhos e contato dos evenques com elementos da natureza. 1) A presença da "alma" já havia sido investigada por Durkheim; por meio dos sonhos, este povo acreditava que seu "eu" interior saía do corpo hospedeiro á noite para vagar pela terra; 2) A observação da natureza, mais precisamente na figura dos animais, que eram além de sua caça também seus companheiros em terra, fez com que os evenques dotassem os animais dos mesmos princípios vitais dos homens. Neste ponto, segundo Lambert, havia uma "troca de princípios vitais" entre homem e animal, justificando seu consumo. O animal, quando caçado e morto, tinha sua alma dispersada na natureza para reencarnar, talvéz, em um corpo humano mais tarde, enquanto seu corpo era consumido junto com sua energia vital pelos homens. Quando estes morrem, voltam á natureza de duas formas: seu corpo volta á terra, que dá origem á vegetação, que por sua vez é consumida pelos animais, e sua alma reencarna em um corpo animal, criando assim um ciclo de reencarnação entre homem e animal. Lambert cita L. Delaby, e compara este ciclo com o fluxo do rio Lenissei, ao norte da Rússia), onde a nascente do rio é um lugar onde as almas, humanas e animais, esperam pare reencarnar, o seu curso é o mundo físico, onde há trocas vitais entre humanos e animais, e sua desembocadura seria o "mundo dos mortos", primeiro lugar onde as almas vão depois que morrem e esperar o momento em que, na forma de pássaros, voltem á nascente do rio para voltar ao mundo físico.

Um dos papéis do xamã pode ser localizado aqui, na figura de "guardião espiritual" das almas, cuidando delas para que possam reencarnar. Percebe-se aqui a grande importância do xamã, que está sempre em contato com o mundo espiritual desde sua "escolha": são os espíritos da natureza que o escolhem, sempre através dos sonhos. Para ser um xamã, é preciso ter "talento" para isso, pois os espíritos não escolhem qualquer pessoa. Após sofrer uma investidura do mundo espiritual (guiado e observado pelo xamã-mor do povo), sua própria comunidade o investe de poderes, acreditando nele e elaborando ritos de passagem para o novo xamã. Outra importância sua vem justamente do ofício caçador evenque: o xamã é o responsável pelos ritos pré-caçada. O xamã então "pede" aos espíritos que possam caçar e tenham sua bênção para matar animais. Este ponto é muito interessante, pois precisavam da autorização dos espíritos para matar os animais. É importante ressaltar que, no meio social dos evenques, nenhum animal pode ser morto sem o consentimento dos espíritos, uma vez que os animais dão sua energia vital para os homens e que os animais um dia já foram homens. Portanto, podemos entender a caçada realmente como uma necessidade, não um mero capricho. Caso os espíritos sejam desobecedidos ou desrespeitados, há o que Lambert chama de "alma fraca", ou seja, a doença, o desânimo, a depressão e até a morte. Qualquer morte "não natural" é vista como uma transgressão ao mundo espiritual, portanto, fora de seu curso natural.

Lambert continua seus estudos com a ideia de adaptação do xamanismo à sociedade agro-pastoril, fruto da Revolução Neolítica. Sabendo que o xamanismo é próprio de sociedades caçadoras-coletoras, o autor disserta sobre sua função nestas sociedades sedentárias, que produzem seu próprio alimento sem a necessidade primordial de caçar animais silvestres.

Veremos isto mais á frente, conforme minha leitura for progredindo. Por enquanto, esta é a bibliografia da leitura:

LAMBERT, Yves. "O Nascimento das Religiões". São Paulo - SP: Ed. Loyola, 2011.

por Fernando Tetsuo Miyahira.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

De volta á ativa!

Boa noite, caros leitores! Após (quase) um ano praticamente "abandonado", o blog Novum Religionis voltará á ativa neste mês. O motivo da falta de postagens se deve ao fato de intensa falta de disponibilidade, por causa de estudos, trabalho, etc. Com problemas e pendências resolvidas, voltarão as postagens de micro-artigos, artigos, discussões e comentários sobre eventos envolvendo religião e religiosidade, sempre vistas através das lentes das Ciências Humanas. Agradeço á quem nos tem ajudado e apoiado, com ou sem postagens.

Boas leituras!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Igreja Católica perde combate contra a Modernidade?



Hoje resolvi comentar um fato que ocorreu nesta semana. Segundo o site MacWorld Brasil :

"Para divulgar o novo site do Vaticano, o Papa Bento XVI, que tem 84 anos, mostrou que a Igreja Católica está de olho nas novas tecnologias. Em vez de um pronunciamento para a imprensa ou fiéis da maneira tradicional, utilizou um iPad e o Twitter.

Em seu primeiro texto no popular microblog, o líder da Igreja escreveu: 'Queridos amigos, acabei de lançar o News.va, louvado seja nosso senhor Jesus Cristo! Com minhas orações e bênçãos, Bento XVI'.

Um vídeo no YouTube mostra o Papa chegando a um escritório e depois sendo “apresentado” ao tablet da Apple. O News.va tem como objetivo ser um canal para a publicação de notícias, eventos e comunicados, com o apoio de áudio e vídeo. Para divulgar o conteúdo, o Vaticano divulgará essas informações também no Twitter."


Um acontecimento no mínimo inesperado vindo da instituição católica. Até onde sabemos, a Igreja sempre foi opositora radical à modernidade. Durante fins do século XIX e primeira metade do XX, a Igreja, principalmente no Brasil, passou por um momento que chamamos de "Igreja da Neocristandade". Seguindo ensinamentos do Papa Pio IX e Pio XI, a aversão à modernidade se tornou o principal discurso político-religioso da Igreja, juntamente com o combate ao Comunismo. Além de interesses como, por exemplo, a insersão da fé católica em setores leigos da sociedade, a Igreja tinha por interesse o apoio das elites conservadoras para ter um maior leque de ação na sociedade. Isso pode ser visto com alianças e trocas de interesses entre a Igreja e regimes de direita, como o Fascismo e o governo de Getúlio Vargas no Brasil dos anos 30-50.

Por: Fernando Tetsuo Miyahira.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sincretismo religioso na Nova Espanha

O artigo aqui apresentado é um trecho de minha monografia de graduação, entitulado "A Igreja Católica Espanhola: da Reconquista ao Novo Mundo", orientado pelo Prof. Dr. Gilberto Lopez Teixeira e apresentado no Centro Universitário "Fundação Santo André", no ano de 2008.

Mesmo com toda a experiência obtida com os Mouros durante as guerras da Reconquista, podemos afirmar que foi em Nova Espanha que a Igreja e o Estado espanhóis acabam lançando uma enorme sujeição da população local em prol da “dominação” espanhola, criando um gênero de vida único e uniforme. Como vimos, Bernardino de Sahagún dizia que o sincretismo não causaria uma perda enorme apenas para a fé católica, mas também para a cultura do povo asteca em geral. Hoje podemos ver com clareza que não foi bem assim.

As duas sociedades foram postas em contato pelas ações da Conquista, fazendo com que se enfrentassem não apenas no plano religioso e político, mas também em um plano mais global, ou seja, no domínio de suas respectivas percepções do real. Entretanto, nem por isso, nem pelas ações dos franciscanos e dominicanos devemos considerar que as massas estivessem completamente cristianizadas. Gruzinski afirma em sua obra que “os rituais da Igreja coexistiam, em muitos lugares, com práticas autóctones ”. Isso porque, além de documentos, livros e Códices, também existia outra fonte sobre a cultura e religião dos Astecas: os anciões. A simples presença destes “detentores da tradição” implicava persistências claras do modo de vida claras, afinal, eles eram o ícone de respeito e sabedoria. De qualquer forma, o domínio público cristão foi muito mais eficiente do que na esfera individual. Isso porque a Igreja dificilmente tinha como se aproximar do indivíduo. Seus ritos, como o da confissão, batismo, matrimônio, segundo Gruzinski, pouco afetava a vida pessoal das pessoas, estas acostumadas com a coexistência de culturas diferentes desde muito antes da chegada dos espanhóis católicos. Com certeza a influência familiar era maior do que a das doutrinas cristãs; portanto possivelmente parece mais importante. E finalmente, podemos contar com o fato de que os altares domésticos deram lugares às imagens cristãs, porém ainda continua sendo na esfera individual.

Podemos perceber a persistência da idolatria, primeiramente, na manifestação deste ambiente doméstico. Por exemplo, documentos de época de freis e clérigos evangelizadores, como José Villaseñor, contam que na cidade de Morelos, índios e índias escondiam nos altares de suas casas cestos, às vezes lacrados à chave, contendo estatuetas familiares, pulseiras, brinquedos infantis, pedras coloridas e até plantas alucinógenas usadas em rituais pagãos. Estes cestos recebiam o nome de tlaquimilolli, ou em nahuatl, “pacotes-relicários”, que serviam para selar a aliança do povo terreno com seu deus tutelar, ou seja, protetor pessoal, familiar ou até mesmo da aldeia em questão. Estes pacotes então nos mostram dois eixos da idolatria: a manutenção de uma relação com os ancestrais, que o cristianismo negava ao afirmar que os antepassados pagãos do povo asteca “ardiam nas chamas do inferno”, pois eram hereges aos seus olhos, e a intermediação, ou seja, a intervenção de um objeto que não é uma imagem e não poderia ser visto, pois estava lacrado, mas mesmo assim produzia um apego pessoal imenso comparando-se com o poder das imagens e “ídolos” dos cristãos. Isto confirma claramente a manutenção, persistência da idolatria em um lugar que, teoricamente, teria de ser totalmente conquistado pelo modo de ver o mundo; pela mentalidade católica.

Isto não era algo que os cristianizadores tinham em mente. Por isso o aspecto mais peculiar de todo o processo conquistador espanhol é, provavelmente, o fato de romperem com o padrão de pensamento nativo, pois acabaram por introduzir outras percepções do real que não eram usados por estes índios. Com efeito, os evangelizadores queriam que os índios aderissem ao sobrenatural cristão, sem considerar grande parte de sua cultura e sua mentalidade. É justamente por esta “vontade de cristianizar” que surge os mal-entendidos culturais do século XVI. Por exemplo, segundo Gruzinski, cada povo estava tão mergulhado em seu imaginário que “(...) os índios acreditavam que Cortéz era a reencarnação do deus Quetzalcoatl que voltara para tomar seu reino de volta, enquanto os cristãos tomaram os deuses pagãos por criaturas surgidas de Satanás ”. É exatamente no fato de a Igreja desejar que os índios conhecessem termos e conceitos cristãos para evitar este tipo de mal-entendido que há a raiz do sincretismo cultural no México.

O inferno cristão escolhido entre a cultura asteca, por exemplo, era o Mictlán, ou a morada dos mortos, ainda por cima gelada. O céu foi denominado o Ilhuicatl, ou o conjunto de mundos além-túmulo composto por treze níveis. Deus ficou “sendo” Ometéotl, da qual Quetzalcoatl é uma de suas formas, enquanto a Virgem Maria foi vista nas imagens de Tonantzin, ou uma das formas da deusa-mãe Asteca. Até mesmo os primeiros religiosos que agiram no México foram confundidos com xamãs: suas visões que transcreviam milagres ou de santos que vinham se comunicar com estes clérigos eram muitas vezes interpretadas, pelos índios, como as visões xamânicas de seus feiticeiros, por exemplo, as profecias dos sábios de Montezuma prevendo o fim do império Asteca. Porém, deve-se acrescentar que estas visões dos xamãs, diferentes das visões dos clérigos cristãos eram provocadas por drogas alucinógenas ou plantas medicinais com fins terapêuticos.

Contudo, não podemos afirmar que esta relação teve impacto somente sobre os indígenas. Muito pelo contrário, acabou afetando também a crença dos espanhóis ou outros europeus que haviam se estabelecido nas terras americanas. Gruzinski ainda afirma que alguns espaços que escapavam da interpretação cristã e da interpretação idólatra. Era exatamente estes espaços que acabaram tomando não toda, mas uma parte considerável do imaginário mexicano durante o século XVI. Trata-se das chamadas “magias coloniais”, que eram práticas de pactos com demônios, adivinhações, leitura de partes do corpo ou cartas praticadas por negros, espanhóis, índios e mestiços. Contrariamente à idolatria e ao cristianismo, as magias coloniais não se baseavam em uma concepção relativamente homogênea do mundo. Ou seja, ela sofria influência de todos os lados: tanto em suas raízes - sejam elas consideradas heresias na Europa, sejam consideradas “excêntricas” pelos nativos americanos - quanto nas práticas, recebiam forte influência das práticas xamânicas da idolatria como da crença em santos cristãos. Por exemplo, nos Anales de Tlateloco, uma compilação de manuscritos e códices Astecas temos registros que foram traduzidos por especialistas como cartas de tarô ciganas, porém com imagens de santos, como São Tomás e a Virgem Maria.

Outra característica do sincretismo na América durante este período era a aparição de características cristãs nas visões de índios nativos. Por exemplo, Gruzinski relata que Domingos Hernández, um índio de Tlaltizapán, uma aldeia naua localizada no centro da região de Cuernavaca, na margem direita do rio Yautepac, adquiriu a fama de Santo por ter visões que, segundo as crenças locais, eram capazes de capacitá-lo a curar doenças . Resumidamente, o relato passa-se na casa, nos seus supostos momentos finais. Agonizando por três dias devido a “muita bebedeira”, relata ter sido procurado por duas pessoas vestidas por túnicas brancas e levado para muito longe de sua casa. Lá, os três curaram alguns doentes, que também estavam em seus últimos momentos, “(...) soprando-lhes ar nas ventas ”. Depois, teve visões de dois caminhos; um largo onde passavam muitas pessoas, e acabava terminando no Purgatório, e um estreito, que terminava com muita luz. Escolhendo o segundo caminho, acorda em sua casa, cercado por três damas vestidas de branco, que segundo Domingos eram a Virgem Nossa Senhora, Verônica, e outra que não se identificou. A partir deste dia, sentiu-se bem e começou a ajudar as pessoas que estavam muito doentes.

Ou seja, este é um exemplo de relato que era comum nesta época. De um lado, porque se trata claramente de um tipo de iniciação xamânica, fora de qualquer controle eclesiástico. Do outro, porque as visões ocorrem com presença de características cristãs: o Purgatório, os dois caminhos seguidos pelas almas, uma para salvação e outra para a danação, e principalmente pela aparição da Virgem Nossa Senhora. Em suma, o que o índio Domingos presenciou foi uma visão tipicamente idólatra, porém impregnada com elementos cristãos, resultado dos esforços dos clérigos evangelizadores espanhóis.

Bibliografia:
Anales de Tlatelolco. In: "Corpus Codicum Americanorum Medii Aevi". Edição de Einar Munksgaard, Copenhague, 1945, tomo II.
GRUZINSKI, Serge. A Colonização do Imaginário. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2003.