quarta-feira, 24 de maio de 2023

Narcopentecostalismo e os limites entre conversão religiosa e criminalidade no Rio de Janeiro.

    Narcopentecostalismo é um termo usado para descrever a aliança entre traficantes de drogas e membros de igrejas pentecostais no Brasil. Esse fenômeno tornou-se cada vez mais prevalente nos últimos anos e levantou preocupações sobre as implicações morais e éticas dessa colaboração. Um dos exemplos mais notórios de narcopentecostalismo no Brasil é o Complexo de Israel, uma poderosa organização criminosa que opera na favela do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

    O Complexo de Israel foi formado no início dos anos 2000 e rapidamente se tornou uma das organizações criminosas mais poderosas do Rio de Janeiro. O grupo é liderado por Marcos Pereira, um pregador pentecostal que usa sua influência religiosa para manter o controle da favela. Pereira foi acusado de usar sua igreja para lavar dinheiro do tráfico de drogas e também foi implicado em casos de estupro e agressão sexual ¹.

    O Complexo de Israel tem uma hierarquia complexa e funciona com uma estrutura militar. O grupo controla todos os aspectos da vida na favela, incluindo comércio, transporte e segurança. Os membros do grupo são conhecidos por sua extrema violência e foram responsáveis ​​por inúmeros crimes, incluindo assassinatos, sequestros e extorsão.

    A relação entre o Complexo de Israel e o pentecostalismo é complexa. Alguns membros do grupo são pentecostais devotos que veem suas atividades criminosas como uma forma de financiar seu trabalho religioso. Outros usam suas afiliações religiosas para obter aceitação social e legitimidade. No entanto, muitos líderes pentecostais no Brasil rejeitam qualquer associação com o narcotráfico e a veem como uma traição aos seus valores religiosos.

    O Complexo de Israel é um excelente exemplo dos perigos do narcopentecostalismo. Os líderes do grupo usaram a religião para justificar suas atividades criminosas e conquistaram muitos seguidores entre os moradores pobres e marginalizados da favela ². O controle do grupo sobre a favela dificultou a intervenção da polícia e de outras autoridades e criou uma sensação de ilegalidade na área.

    Esforços para combater o narcopentecostalismo no Brasil continuam. O governo implementou programas destinados a promover a inclusão social e reduzir a pobreza nas favelas, e organizações da sociedade civil têm trabalhado para aumentar a conscientização sobre os perigos do narcopentecostalismo. No entanto, o problema é complexo e exigirá esforços sustentados a longo prazo para abordar as causas desse fenômeno e impedir a disseminação de grupos como o Complexo de Israel.

    Em conclusão, o narcopentecostalismo é um fenômeno complexo e preocupante no Brasil. A aliança entre traficantes de drogas e igrejas pentecostais criou um dilema moral e ético para muitos brasileiros. O Complexo de Israel é um excelente exemplo dos perigos do narcopentecostalismo e criou uma sensação de ilegalidade na favela do Complexo do Alemão. Embora os esforços para combater esse problema estejam em andamento, serão necessários esforços sustentados e coordenados por parte do governo e das organizações da sociedade civil para abordar as causas profundas desse fenômeno e impedir sua disseminação na sociedade brasileira.


¹: https://veja.abril.com.br/brasil/policia-do-rio-investiga-pastor-celebridade-por-denuncias-de-estupro-tortura-e-ameaca-de-morte/

²: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj5ej64934mo

Imagem: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/07/24/traficantes-usam-pandemia-para-criar-novo-complexo-de-favelas-no-rio-deixam-rastro-de-desaparecidos-e-tentam-impor-religiao.ghtml


terça-feira, 16 de maio de 2023

A difícil aceitação da religião e ciência juntas na modernidade.



    A religião e a ciência muitas vezes abordam diferentes domínios da compreensão humana e podem ser vistas como abordagens distintas para explicar o mundo. Enquanto a ciência se baseia em evidências empíricas, metodologia rigorosa e o método científico para entender e explicar o mundo natural, a religião geralmente se baseia na fé, na espiritualidade e em conceitos metafísicos para abordar questões de significado, propósito e moralidade. Como tal, a religião normalmente não depende do raciocínio baseado em evidências da mesma forma que a ciência.

    No entanto, vale a pena notar que alguns indivíduos religiosos ou grupos religiosos podem interpretar os ensinamentos de sua fé de maneira compatível com o conhecimento e os princípios científicos. Eles podem não ver nenhum conflito inerente entre suas crenças religiosas e a compreensão científica e podem até vê-los como formas complementares de entender o mundo. Nesses casos, os indivíduos podem encontrar significado e propósito pessoal por meio de sua fé religiosa, ao mesmo tempo em que aceitam e abraçam o conhecimento e as evidências científicas.

    A relação entre religião e ciência é complexa e evoluiu ao longo do tempo. Embora tenha havido instâncias históricas de conflito entre perspectivas religiosas e científicas, também há muitos exemplos de indivíduos e comunidades que integram suas crenças religiosas e compreensão científica de forma harmoniosa. Essa perspectiva, às vezes chamada de "compatibilismo", sustenta que a religião e a ciência podem coexistir e até mesmo enriquecer a compreensão mútua do mundo.

    É importante observar, no entanto, que também há casos em que as crenças religiosas podem entrar em conflito com as descobertas científicas ou vice-versa. Nesses casos, os indivíduos podem precisar reconciliar ou navegar pelas diferenças entre sua fé religiosa e compreensão científica com base em suas crenças, valores e contexto pessoais.

    Em resumo, a religião e a ciência podem ser vistas como abordagens distintas para a compreensão do mundo, com a religião tipicamente baseada na fé e em conceitos metafísicos, em vez do raciocínio baseado em evidências. Embora alguns indivíduos possam encontrar maneiras de conciliar suas crenças religiosas e compreensão científica, a relação entre religião e ciência é complexa e multifacetada, e as perspectivas sobre sua compatibilidade variam.


segunda-feira, 1 de maio de 2023

Religiosidade e partidos de extrema direita no Brasil: a religião a serviço da política?

    O seguinte artigo tem como base o artigo anteriormente postado neste blog (https://novumreligionis.blogspot.com/2023/04/religiosidade-e-partidos-de-esquerda-no.html), de forma que, será usada a mesma estrutura textual utilizada anteriorment. Ambos artigos foram escritos em mesmo momento, entretanto optei por separá-los na hora da publicação.

    A interseção entre religião e política tem sido um aspecto significativo do cenário social e político no Brasil, e os partidos de extrema direita emergiram como forças políticas influentes nos últimos anos. A religiosidade, com suas diversas tradições e práticas religiosas, desempenha um papel crucial na formação das ideologias e estratégias políticas desses partidos. Neste ensaio, exploraremos a relação entre religiosidade e partidos de extrema-direita no Brasil, examinando como a religião se cruza com a política nesse contexto.

    O Brasil é conhecido por seu cenário religioso diversificado, sendo o catolicismo historicamente a religião dominante. No entanto, nos últimos anos, houve um aumento do protestantismo evangélico, principalmente entre as comunidades marginalizadas. Essa mudança no cenário religioso também tem implicações no cenário político, incluindo a ascensão de partidos de extrema direita. Esses partidos costumam usar a religião como uma força mobilizadora, apelando para sentimentos e valores religiosos para angariar apoio.

    Os partidos de extrema direita no Brasil, como o Partido Social Liberal, PSL, muitas vezes utilizaram a religiosidade como um aspecto significativo de sua agenda política. Esses partidos tendem a se alinhar com grupos e líderes religiosos conservadores, defendendo questões como valores familiares tradicionais, políticas antiabortivas e oposição aos direitos LGBTQ+. Frequentemente, eles se apresentam como campeões de valores religiosos e defensores de instituições religiosas tradicionais, posicionando a religião como um aspecto fundamental de sua identidade política.

    A religiosidade também desempenha um papel na formação das políticas e estratégias dos partidos de extrema direita no Brasil. Essas partes podem procurar promover políticas alinhadas com os ensinamentos e valores religiosos, como promover a educação cristã nas escolas, apoiar símbolos religiosos em espaços públicos e defender padrões morais e éticos mais rígidos na sociedade. Eles também podem se envolver em uma retórica que enquadra seus oponentes políticos como contrários aos valores religiosos, posicionando-se como protetores do tecido moral e religioso da nação.

    Além disso, os partidos de extrema direita no Brasil muitas vezes utilizam redes e líderes religiosos para mobilizar apoio entre sua base. Eles podem buscar endosso de figuras religiosas influentes, realizar comícios ou eventos conjuntos com organizações religiosas e usar linguagem e simbolismo religiosos em seu discurso político. Instituições religiosas, particularmente as conservadoras, podem servir como poderosas aliadas e mobilizadoras de partidos de extrema-direita, ajudando-os a ampliar sua agenda política e a obter apoio entre eleitorados religiosamente devotos.

    É importante observar que a relação entre religiosidade e partidos de extrema direita no Brasil não é isenta de polêmicas e conflitos. Embora alguns grupos religiosos possam se alinhar com esses partidos com base em valores ou interesses compartilhados, outros podem ter perspectivas diferentes sobre questões como justiça social, redução da pobreza e direitos humanos. Pode haver tensões dentro das comunidades religiosas, bem como com outros grupos políticos, quando se trata do papel da religião na política e nas políticas defendidas pelos partidos de extrema direita.

    Concluindo brevemente, a relação entre religiosidade e partidos de extrema direita no Brasil é de difícil percepção a olho nu. Esses partidos frequentemente utilizam a religiosidade como um aspecto significativo de sua agenda política, alinhando-se com grupos e líderes religiosos conservadores e defendendo políticas que se alinhem com os ensinamentos e valores religiosos. A religiosidade desempenha um papel crucial na formação das estratégias e políticas dos partidos de extrema direita no Brasil, e as redes e líderes religiosos atuam como mobilizadores influentes de apoio. No entanto, podem surgir conflitos e tensões dentro das comunidades religiosas e com outros grupos políticos sobre questões relacionadas com religião e política.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Religiosidade e partidos de esquerda no Brasil: examinando a relação entre religião e política

    Religião e política há muito se entrelaçam em várias sociedades ao redor do mundo, e o Brasil não é exceção. Com sua rica diversidade cultural e religiosa, o Brasil possui uma complexa relação entre religiosidade e ideologias políticas. Nos últimos anos, os partidos de esquerda e extrema esquerda no Brasil emergiram como forças políticas significativas, muitas vezes com abordagens religiosas contrastantes. Neste pequeno ensaio, exploraremos a relação entre religiosidade e partidos de esquerda no Brasil, examinando como religião e política se cruzam nesse contexto.

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2022/06/23/esquerda-acredita-que-salvara-as-pessoas-no-lugar-de-cristo-diz-evangelico-do-psol

    A paisagem histórica e cultural do Brasil é caracterizada por uma gama diversificada de tradições religiosas, incluindo catolicismo, protestantismo, religiões africanas da diáspora, como candomblé e umbanda, e práticas espirituais indígenas. Essas tradições religiosas desempenham um papel significativo na formação do cenário religioso do Brasil e influenciam sua política. Tradicionalmente, o catolicismo tem sido a religião dominante no Brasil, com forte influência no tecido político e social do país. No entanto, nas últimas décadas, houve um aumento do protestantismo evangélico, principalmente entre as comunidades marginalizadas. Essa mudança no cenário religioso também tem implicações no cenário político, incluindo o surgimento de partidos de esquerda.

    Os partidos de esquerda no Brasil, como o Partido dos Trabalhadores, PT, têm sido frequentemente associados a políticas sociais e econômicas progressistas, defendendo questões como justiça social, direitos trabalhistas e redistribuição de renda. No entanto, sua postura em relação à religião tem variado, com alguns partidos de esquerda adotando uma abordagem secular, enquanto outros tentam navegar em um relacionamento complexo com a religiosidade. Por exemplo, o PT tem sido historicamente visto como mais acomodado em relação a grupos religiosos, particularmente o catolicismo progressista e o protestantismo evangélico. O partido tem procurado construir alianças com organizações e lideranças religiosas, reconhecendo a importância social e política da religião no Brasil. Essa abordagem tem se refletido nas políticas e estratégias do PT, como o apoio a iniciativas baseadas na fé e a incorporação da linguagem e do simbolismo religioso em seu discurso político.

    Por outro lado, alguns partidos de esquerda no Brasil têm assumido uma postura mais laica, defendendo uma estrita separação entre religião e política. Eles veem a religiosidade como um obstáculo potencial à mudança social progressiva, muitas vezes criticando as instituições religiosas por seu conservadorismo percebido e influência na política. Esses partidos podem priorizar políticas seculares e enfatizar a importância de abordagens científicas e baseadas em evidências para a formulação de políticas, muitas vezes distanciando-se de grupos e líderes religiosos.

    A relação entre religiosidade e partidos de esquerda no Brasil é complexa e multifacetada. Enquanto alguns partidos de esquerda podem tentar incorporar grupos e crenças religiosas em sua agenda política, outros podem adotar uma abordagem mais secular. Também há casos em que grupos e líderes religiosos podem se alinhar ou endossar partidos de esquerda com base em valores ou interesses compartilhados. No entanto, tensões e conflitos também podem surgir, principalmente quando há diferentes perspectivas sobre questões como direitos reprodutivos, direitos LGBTQ+ ou o papel das instituições religiosas na vida pública.

    Vale notar que a relação entre religião e partidos de esquerda no Brasil é influenciada por fatores sociais, culturais e históricos mais amplos. A história de colonização, escravidão e desigualdade do Brasil moldou o cenário religioso e as ideologias políticas de diferentes grupos. A interação entre religião e política no Brasil também é influenciada por tendências globais, como a ascensão do conservadorismo religioso, o impacto da globalização e a dinâmica de mudança nas comunidades religiosas.

    Em suma, para este historiador, a relação entre religiosidade e partidos de esquerda no Brasil é complexa e dinâmica. Enquanto alguns partidos podem tentar incorporar grupos e crenças religiosas em sua agenda política, outros podem adotar uma abordagem mais secular. Essa relação é influenciada por fatores históricos, culturais e sociais.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Luiz Felipe Pondé: "Deus é uma hipótese elegante"

Em recente entrevista dada ao Portal Imprensa, do UOL, Luis Felipe Pondé mostra que é mais do que um simples liberal conservative ("direitista liberal"). Quando perguntado sobre o Ateísmo, e se este é o que melhor define sua opinião sobre Deus, o filósofo responde:

"O primeiro momento que me lembro como ateu, tinha oito anos. Lembro do dia, inclusive. Tenho o sentimento de que, aos oito ou dez anos, eu já era mais ou menos quem sou hoje. Escrevi isso no livro que eu publiquei com o João Pereira Coutinho e o Denis Rosenfield, “Porque virei à direita” [Ed. Três Estrelas, 2012]. Mas, hoje, acho o ateísmo banal, é a hipótese mais fácil. Ao mesmo tempo, acho Deus uma hipótese elegante. A ideia de que exista um ser inteligente, bondoso, que gerou o mundo, é filosoficamente interessante. Mas, não sinto necessidade no meu dia a dia. Nasci sem órgão metafísico."

Ao meu ver, esta declaração ilustra de forma clara o estado do Ateísmo no Brasil. O "Deus elegante" apresentado por Pondé ilustra, também, a categoria de Deísmo que temos no país. Ao mesmo tempo em que correntes com um grau acentuado de militância corre pelos veículos de informação como a Internet, a característica "confortadora" e "que dá um jeitinho nos problemas cotidianos" de Deus que está presente desde meados do século XX faz com que a religião no país se torne menos rígida do que o próprio Ateísmo. Esta inversão de valores é, na minha visão, passada batida por olhares menos atenciosos exatamente por ser um fenômeno recente e incomum na história de nossa sociedade. Só o tempo dirá se um dia teremos templos e dizimistas ateístas.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Papa Francisco: "Ateus também vão para o céu"

No dia 22 de maio de 2013, o líder da Igreja Católica, Papa Francisco, afirmou durante sua homilia matinal que "(...) o Senhor nos redimiu a todos, a todos nós, no sangue de Cristo (...) não apenas os católicos. Todos!". Após ser indagado sobre a questão dos ateus, Papa Francisco afirmou que "(...) até mesmo os ateístas. Todos". Papa Francisco ainda utilizou um trecho do evangelho de Marcos,  que diz:

"(…) E João lhe respondeu, dizendo: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue.
Jesus, porém, disse: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu   nome e possa logo falar mal de mim. Porque quem não é contra nós, é por nós."

Esta declaração, apesar de não ter sido posta com o intuito de criar uma discussão teológica, segundo o porta-voz do Vaticano, Rev. Thomas Rosica, criou uma série de debates na Internet, principalmente em sites e blogs ateístas. Segundo o próprio porta-voz do Vaticano, "(...) pessoas que conhecem a Igreja Católica não podem ser salvas se recusarem-se a entrar nela ou fazer parte dela”.

terça-feira, 12 de março de 2013

Angelo Scola, Arcebispo de Milão e "preferido" ao título de Papa

As últimas semanas são de grandes especulações sobre a eleição do novo Papa da Igreja Católica, e sucessor de Joseph Ratzinger (Bento XVI) após sua abdicação do trono papal.

As semelhanças com corridas eleitorais políticas são grandes, inclusive no fato de haverem candidatos "preferidos" entre todos os 115 cardeais que votam hoje, dia 12/03. Sobre o fato shitórico para a Igreja, o teólogo vaticanista John Allen Jr. escreveu para o site National Catholic Reporter sobre o cardeal que mais tem chances de subir ao trono papal, Angelo Scola, atual arcebispo de Milão.

"É consenso que de não existe um favorito disparado para o conclave, mas o mais próximo que existe de um “pole-position” é, provavelmente, o cardeal Angelo Scola, arcebispo de Milão, 71 anos.

Scola bebe da mesma fonte intelectual de Bento XVI, sendo um egresso da escola teológica da revista Communio, cofundada pelo jovem Joseph Ratzinger logo após o Concílio Vaticano II (1962-1965). Como jovem teólogo, Scola publicou longas entrevistas com Henri de Lubac e Hans Urs von Balthasar, grandes teólogos de seu tempo.

Durante a graduação, Scola conheceu o famoso padre Luigi Giussani e se tornou parte do movimento Comunhão e Libertação. Recentemente, Scola vem tentando se distanciar um pouco dos ciellini, como são chamados os membros de centro-direita desse grupo, especialmente porque vários líderes políticos italianos associados a ele andam envolvidos em escândalos de corrupção. Mesmo assim, no ambiente eclesial italiano, Scola está intimamente ligado ao movimento, o que tem seus prós e contras – alguns admiram profundamente o Comunhão e Libertação; outros, nem tanto. O elo do grupo com Scola ficou mais forte graças ao “Vatileaks”, que incluía uma carta do sucessor de Giussani a Bento XVI em março de 2011, reclamando que os dois últimos arcebispos de Milão eram críticos demais em relação a certos aspectos da doutrina católica, e sugerindo que Scola era o melhor candidato para sucedê-los.

Intelectualmente, a área de Scola é a antropologia moral, tema que lecionou no Instituto João Paulo II para Estudos Sobre Matrimônio e Família, na Pontifícia Universidade Lateranense, antes se tornar reitor.

Os argumentos a favor de Scola são os seguintes:

Primeiro, ele é um Ratzinger com um apelo um pouco mais popular. Ele se sente à vontade com a imprensa e, às vezes, se sai melhor no improviso que quando prepara um discurso com antecedência. Seus textos podem ser densos às vezes, mas seus comentários espontâneos são acessíveis, informais e cheios de bom humor.

Segundo, como italiano, ele conhece o terreno e sabe se mover dentro da política vaticana. Considerando que achar alguém que tome as rédeas na Cúria Romana é uma prioridade perceptível para muitos cardeais, isso é uma clara vantagem.

Terceiro, Scola tem uma larga experiência pastoral, tendo liderado as arquidioceses de Veneza e Milão. Ele não é um burocrata de carreira, e muitos cardeais têm dito publicamente que desejam um papa com experiência real nas trincheiras pastorais.

Quarto, em 2004 Scola lançou o projeto Oásis, inicialmente destinado a apoiar cristãos no Oriente Médio, mas que se tornou uma plataforma de diálogo com o mundo muçulmano. Já que as relações com o Islã são consideradas um dos principais desafios do próximo papa, o histórico de Scola é outra vantagem.

Mas também há elementos que pesam contra Scola.

Primeiro, como italiano, ele acaba absorvido pelas rivalidades tribais da vida eclesiástica da Itália. Muitos bispos do país ainda têm o pé atrás com o Comunhão e Libertação, vendo-o como poderoso demais, e podem pensar duas vezes antes de votar por um papa ciellino. É importante entender que, em sua maioria, as divisões entre os italianos têm muito pouco a ver com ideologia ou concepções conflitantes sobre a Igreja, embora elas existam. Por exemplo, o círculo mais ligado ao cardeal Camillo Ruini, ex-presidente da conferência episcopal italiana, é visto como mais tradicional que o ligado ao atual presidente, cardeal Angelo Bagnasco. O que define o contraste, na verdade, é a rede de relações pessoais e de apadrinhamento.

Segundo, como Scola é um dedicado ratzingeriano em termos de perfil intelectual, aqueles para quem o próximo papa devesse adotar uma abordagem um pouco diferente – ou pelo menos ter outra lista de prioridades – podem vê-lo como representante de uma continuidade exagerada.

Terceiro, alguns cardeais acreditam que a solução para os problemas de gerenciamento escancarados pelo “Vatileaks” não é eleger outro italiano, mas justamente derrubar a fortificação italiana na cultura interna do Vaticano. Para esse grupo, finalmente chegou a hora de cumprir a antiga promessa de internacionalização do Vaticano, iniciada sob Paulo VI e que passou por surtos sob João Paulo II e Bento XVI.

Quarto, Scola pode sofrer simplesmente por estar sob os holofotes há muito tempo, permitindo que opiniões a seu respeito se cristalizem, e dificultando que se crie um consenso repentino sobre ele. Quais são as perspectivas de Scola como possível sucessor papal? É preciso levar em consideração que outro dos documentos divulgados no escândalo do “Vatileaks” era um memorando anônimo, escrito em alemão e passado a Bento XVI por um cardeal aposentado, e que foi apresentado na mídia italiana como prova de um incrível complô para matar o papa. O papel pretendia descrever observações feitas privadamente pelo cardeal Paolo Romeo, de Palermo (Sicília), em uma viagem à China. Romero teria dito que Bento XVI estaria morto dentro de um ano e seria substituído por um importante cardeal italiano. Seu nome? Angelo Scola. Em uma corrida na qual exposição demais pode ser fatal, essa não é bem uma publicidade que ajuda as chances de Scola.

Os fãs, no entanto, insistem que Scola tem tido tanta visibilidade por tanto tempo justamente porque ele é uma das figuras mais relevantes nos altos escalões da Igreja, e que o fato de ele ter aguentado firme prova que ele tem as qualidades necessárias para ser papa."

Tradução: Marcio Antônio Campos

* John Allen Jr. é um dos mais experientes vaticanistas da atualidade. Jornalista do site norte-americano National Catholic Reporter (http://ncronline.org/), ele também colabora com o canal de televisão CNN e com a National Public Radio norte-americana. Allen é autor de vários livros sobre a Igreja Católica, incluindo duas biografias de Bento XVI, uma delas escrita quando Joseph Ratzinger ainda era cardeal. Duas de suas obras foram traduzidas para o português: Opus Dei, mitos e realidade, de 2005, e Conclave, de 2002, em que ele descreve os rituais que envolvem a sucessão do papa e apontava vários favoritos para assumir o posto após a morte de João Paulo II.